Psicologia e Pedagogia
COMO SE DECIDE UMA PSICOTERAPIA DE CRIANA
MARIE-CCILE ORTIGUES
EDMOND ORTIGUES
TRADUO
ALVARO CABRAL
REVISO DA TRADUO
MITSUE MORISSAWA

MARTINS FONTES
Ttulo original: COMMENT SE DCIDE UNE PSYCHOTHRAPIE DENFANT?
Copyright  by ditions Denol, 1986
1 edio brasileira: novembro de 1988
Traduo: lvaro Cabral
Reviso da traduo: Mitsue Morissawa
Reviso tipogrfica: Coordenao de Maurcio Balthaza, Leal
Produo grfica: Geraldo Alves
Composio: Artestilo  Compositora Grfica Ltda. 
Capa: Alexandre Martins Fontes 
Todos os direitos para o Brasil reservados  
LIVRARIA MARTINS FONTES EDITORA LTDA. 
Rua Conselheiro Ramalho, 330/340  Tel.: 239-3677 
01325  So Paulo  SP  Brasil 


NDICE 
Introduo          1 
1. AS ENTREVISTAS PRELIMINARES             . 7
O tempo da solicitao                                        .  9
O avesso da solicitao                                      . 14
Interrogar ou convidar a falar?                             .19
A transferncia                                                      .24
As palavras introdutrias de um tratamento      .26
2. A DISTRIBUIO FAMILIAR     .33
Julien F                                              .36
Line                                                    .40
3. A SOLIDARIEDADE NA EVOLUO     . 51
Loc P.             .51
Comentrio    .60
4. DE UMA GERAO A OUTRA          . 67
Um filho para minha irm gmea             .67
Transmisso                                               .78

5. OBJEO E OBSTCULO        .87 
Os direitos da criana                    .87 
A fico do tratamento-padro       .94 

6. O CONCEITO DE PERSONALIDADE         .99 



INTRODUO 
Este livro nasceu de uma constatao. As psicoterapias de crianas, tanto em 
consultrios particulares quanto em instituies, so freqentemente de eficcia medocre: 
tratamentos interrompidos ou interminveis, benefcios mnimos, deslocamentos de 
sintomas no s na criana como tambm entre os membros da famlia. 
Entre os anos de 1950 e 1960, os analistas de crianas tinham a conscincia tranqila: o 
que no ia bem  interrupes ou estagnaes  era por eles atribudo, com a maior 
naturalidade, aos pais, que eles criticavam comodamente: rgidos, possessivos, 
intrometidos, no cooperadores. . . Como conduzir um tratamento com semelhantes pais 
ou contra eles? E tambm no se procurava questionar o motivo das atitudes deles. 
Toda psicoterapia infantil tem uma dimenso familiar, ao mesmo tempo que pessoal. 
Mas, de vinte anos para c, percebeu-se que existem vrias maneiras de se considerar o 
contexto familiar. 
Em 1964, o livro de Laing e Esterson, Sanity, madness and the jamily , props um 
mtodo interessante para estudar as famlias de esquizofrnicos, O mtodo consistia em 
dispor
1




em colunas paralelas as declaraes dos diversos membros da famlia, e no havia 
necessidade de outro comentrio para se perceber que essas declaraes se 
esclareciam mutuamente, como concatenando-se entre si; podia-se discernir ao mesmo 
tempo a perspectiva de cada um sobre a situao por ele partilhada com os outros (p. 
16) e o fato de que cada um no ocupa uma nica posio determinvel com relao a 
outros (p. 17), mas encontra-se comprometido em vrias funes. Portanto, no cabia 
opor o indivduo ao grupo, mas discernir na interferncia das falas e das reaes um dado 
factual, sem o qual no seria possvel compreender as dificuldades de cada um. 
O interesse metodolgico do trabalho de Laing e Esterson era lamentavelmente um pouco 
obscurecido pela maneira como eles punham em confronto o problema biolgico e o 
psicossocial que a esquizofrenia estabelece. Poder-se-ia at considerar que a 
esquizofrenia no constitua o assunto principal do livro de Laing e Esterson. Eles 
poderiam ter adotado como exemplo qualquer categoria nosogrfica. Em todos os casos, 
a classificao dos sintomas  apenas uma informao entre outras sobre o que est em 
jogo em uma histria individual. O alcance de uma observao clnica  julgado a longo 
prazo. A experincia  feita de pequenas bifurcaes suscetveis de produzir, com o 
tempo, importantes divergncias. Enfim, as entrevistas de Laing e de Esterson tinham o 
carter de uma pesquisa; as entrevistas eram orientadas pelas questes que os 
psiquiatras (ou antipsiquiatras) se colocavam: Tentamos obter informaes que nos 
ajudariam a compreender por que a paciente estava doente e hospitalizada (p. 21). Ora, 
uma pesquisa  uma coisa muito diferente de uma psicoterapia. Nesta ltima,  a 
solicitao do consulente que estabelece o problema inicial. 
Essa solicitao inaugura uma situao que no se sabe ainda como ir evoluir. Ignora-se 
tambm se as primeiras entrevistas sero seguidas, ou no, de uma psicoterapia. 
Decidimos limitar-nos, no presente livro, ao estudo das entrevistas preliminares,  
evoluo da solicitao e s condies de estabelecimento de uma situao analtica. 
Quando uma psicoterapia se torna interminvel ou se interrompe bruscamente,  possvel 
com freqncia entrever as 
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razes que bloquearam a situao retomando a questo inicial, quando foi decidido o 
tratamento. Como e atravs de quais trocas de palavras o analista decidiu ou aceitou 
tratar do caso? Qual foi a solicitao inicial? Como ele lhe reagira? Que encaminhamento 
do dilogo conduziu  deciso de empreender uma psicoterapia? 
A finalidade deste livro  apresentar, com a ajuda de anotaes clnicas, uma hiptese de 
trabalho. No se ocupa do tratamento em si. Concentra-se somente nas condies de sua 
instaurao, no encaminhamento que leva  deciso de empreender, ou no, um 
tratamento. Deixa na sombra numerosas questes que se apresentam a todo analista de 
crianas. O fato de s algumas delas serem abordadas no implica que as outras sejam 
consideradas negligenciveis. 
Preferimos tomar nossos exemplos nos consultrios para crianas, pois, neles, o que 
procuramos destacar  mais diretamente legvel do que nas clnicas de adultos. Alm 
disso,  freqente, nesse quadro, coletar as conversas e as reaes de vrias geraes. 
Os exemplos utilizados so tomados de forma aleatria do material das consultas. Alguns 
provm de uma prtica j antiga (o caso de Loc, por exemplo, foi redigido em 1959). 
Quando citamos fatos provenientes do tratamento de psicticos,  sempre com o 
propsito de ressaltar as reaes encontradas nas patologias mais leves, embora de 
modo menos evidente. 
O primeiro captulo trata da solicitao e de sua evoluo. Mostra o que se modifica nos 
dados iniciais, quando cada um pode dispor de seu ritmo temporal prprio, a fim de expor 
as diversas facetas de sua solicitao e chegar a uma deciso pessoal. 
O segundo captulo introduz o que chamamos de a distribuio familiar. O que se 
transmite de uma gerao a outra elabora-se, para cada criana, por intermdio de 
identifi caes e de diferenciaes. Cada um recebe de sua entourage os dados iniciais 
de seus problemas pessoais. Tentaremos mostrar que aquilo que Freud chamava de 
resistncia, apego  doena encobre atitudes que podem ter uma funo positiva 
quando substitudas em seu contexto. Diversos aspectos da mesma idia sero 
desenvolvidos nos captulos 3 E 4.
4


 
Aps ter exposto algumas objees (no captulo 5), propomos algumas reflexes, de 
ordem mais geral, sobre a funo dos pontos de referncia identificatrios na formao 
da personalidade (captulo 6) . As idias expressas neste livro no so passveis de 
transposio direta para o domnio da pedagogia. A questo das referncias pessoais, 
ou das coordenadas da situao pessoal numa seqncia de geraes,  uma questo 
formulada pela clnica, em especial pela existncia de clivagens, de dissociaes, de 
discordncias entre reaes que, na vida cotidiana, no se defrontam. A hiptese de 
trabalho que apresentamos relaciona-se, sem dvida, com a etiologia das neuroses e das 
psicoses, mas a etiologia no est no centro de nossas preocupaes. Trata-se, mais 
modestamente, de explorar as possibilidades de evoluo de uma situao no mbito das 
entrevistas preliminares para uma eventual psicoterapia. 
Convm acrescentar, a esse propsito, uma observao. Os colegas que se apiam 
atualmente em nossas hipteses em sua prtica psicoteraputica e que hoje as 
consideram teis e fecundas mostraram-se no incio reticentes quanto  sua viabilidade. 
Receavam sentir-se dirigidos por seus pacientes, manipulados e levados para situaes 
das quais nunca mais pudessem sair e se reencontrar. Em suma, temiam perder o 
controle do caso e constatar sua impotncia diante de roteiros que no compreendessem. 
O que propomos, com efeito, constitui um deslocamento do controle do analista, pelo 
menos para aqueles que pensam que o analista deve conduzir as entrevistas preliminares 
segundo seu prprio ritmo, seus critrios semiolgicos etc. O controle que procuramos  
outro. Consiste, como tentaremos mostrar, em criar e sustentar um lugar e um tempo, um 
quadro, de tal forma que os solicitantes possam expor suas solicitaes na singularidade 
de seus ritmos, meandros e emaranhados. Esse mtodo de trabalho admite crticas e 
aperfeioamentos. S poder ser julgado a partir dos resultados. 
As orientaes propostas neste livro foram discutidas e elaboradas em grupos de 
trabalho, no interior do Centre de Formation et de Recherches Psychanalytiques (CFRP) e 
fora dele. Cumpre-nos agradecer a todos os membros desses grupos. Seus comentrios, 
suas objees, suas contribuies com ano- 
5



taes clnicas, ajudaram-nos muito a estabelecer com preciso 
nossos pontos de vista. 
Alm disso, um grupo de colegas aceitou examinar os textos que lhes submetamos e 
discuti-los em comum. Eles apoiaram nosso esforo e contriburam para a elaborao 
deste trabalho. Agradecemos calorosamente a cada um deles: Mohand Chabane, Norbert 
Le Gurinel, Anne Levailois, Philippe Ptry e Jacqueline Rabain. 



1. AS ENTREVISTAS PRELIMINARES 
Caminhos diversos podem ser tomados para se chegar  deciso de pr em prtica uma 
anlise ou uma psicoterapia, durante o perodo dito das entrevistas preliminares. 
Gostaramos de mostrar que alguns desses caminhos prejudicam ou tornam impossvel o 
processo que se pretende iniciar, pois ameaam conduzir a uma estagnao ou ruptura. A 
possibilidade de uma anlise decide-se, ao que parece, pela maneira como a resoluo 
foi tomada e pela situao esboada por nossas palavras ao acolher a solicitao do 
consulente. Nossas falas, parte do dilogo com o consulente, so orientadas pela deciso 
a tomar: empreender ou no um processo analtico. Elas estabelecem uma situao, 
ordenando os dados. Toda a seqncia ser marcada, saibamos ou no, no campo que 
essas falas tero criado, sem poder escapar dele, a menos que o analisemos com o 
consulente, o que equivie a constituir ento um campo diferente. 
s vezes,  certo, os bloqueios ou rupturas no se relacionam com um posicionamento 
incorreto. No decorrer do livro, veremos por que o esclarecimento dever ser procurado, 
ento, no lado da dinmica da comunidade familiar. 
Para nos facilitar a tarefa, consideremos uma solicitao banal feita para uma criana por 
seus pais. As solicitaes feitas para ou por uma criana so consideradas, com razo, 
as mais difceis de entender. Mas, para o nosso propsito, tm a vantagem de elucidar 
plenamente certas questes importantes da colocao, em particular as mobilizaes 
que se produzem
7



em todo o grupo familiar, quando um de seus membros manifesta o desejo de que 
alguma coisa mude. Essas mobilizaes so mais evidentes quando se verifica que 
diversas pessoas se situam em relao  solicitao feita como aliadas ou adversrias. 
De outro lado, na suposio de que ambos os pais estejam de acordo em solicitar uma 
psicoterapia para o filho, cabe a este a deciso final, sendo que, de nossa parte, ter ele 
o respeito incondicional ao que resolver, mesmo e sobretudo se no estiver apto a se 
justificar ou a argumentar nesse sentido. Nesse caso, os problemas so os mesmos que 
com um adulto. Voltaremos a abordar, mais adiante, a necessidade de obter o acordo de 
ambos os pais para todo processo e deciso que digam respeito ao filho. 
Tambm por convenincia, apoiar-nos-emos na crtica de uma prtica corrente, tanto em 
clnicas particulares quanto em instituies, quando se recebe uma solicitao para uma 
criana. 
Deixaremos de -lado a questo de se saber a quem ouvir, 
aos pais ou  criana, e em que ordem, juntos ou separados. 
Constatamos certos usos correntes: os solicitantes so recebidos uma, duas, trs vezes, 
para fins de diagnstico (com freqncia, por pessoas diferentes, nas instituies). O 
terapeuta procura avaliar os distrbios apresentados, sua importncia, o contexto familiar 
em que ocorrem. Quando pensa ter concludo essa avaliao, prope um tratamento: 
psicoterapia, reeducao e at mesmo aconselhamento e internao. 
V-se que essa fase preliminar  concebida aqui em funo do terapeuta, daquilo que ele 
busca. Se, aps as duas ou trs consultas habituais, ele considerar que no est ainda 
suficientemente informado para chegar a uma concluso, solicitar outro retorno do 
consulente ou convocar algum da famlia, ou ainda pedir exames complementares, um 
balano da situao. . . E ele quem age, tendo os solicitantes a liberdade de aceitar ou 
recusar a terapia prescrita, e, quando a aceitam de m vontade, diz-se que no so 
cooperadores. Se no respondem a certas perguntas que o terapeuta julga importantes, 
pode-se dizer, por exemplo, que eles no querem voltar a ser questionados. Em suma, o 
terapeuta conduz o processo at um ponto por ele definido e estipulado. 
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Diz-se, por certo, que  preciso analisar a solicitao. Nesse sentido, podem ser utilmente 
formuladas questes que permitiro maior maleabilidade nos dilogos, desvendaro 
aspectos inesperados dos distrbios ou de seu contexto, ou daquele que determinou, num 
dado momento, a solicitao. Mas  sempre o terapeuta quem avalia os depoimentos e 
quem deles extrair suas concluses. 
Os psicanalistas comprazem-se em criticar a autoridade mdica ou psiquitrica. Como se 
explica, ento, que to freqentemente eles a adotem como modelo, valendo-se dessa 
outra escuta? Nessa fase das entrevistas preliminares, por que querer manter as rdeas 
nas mos? No haver grandes inconvenientes em faz-lo? O que se passa quando se 
permite aos solicitantes conduzir o processo? Isso  possvel?  produtivo? 
O tempo da solicitao 
Tentemos descrever como as coisas se passam, ento, observando em primeiro lugar o 
tempo e o ritmo do processo. 
Para que os consulentes cheguem a tomar uma deciso, que seja a deciso deles, 
necessitam geralmente de muito mais tempo do que as duas, trs ou quatro consultas 
habituais. Todo pedido, seja feito ou no com urgncia, mobiliza as posies libidinais e 
identificatrias, as defesas de uns e de outros, assim como a dinmica prpria do grupo 
familiar. A complexidade de tal mobilizao s raramente pode ento ser decifrada  no 
tem, talvez, por que o ser , mas  til que ela venha a se manifestar com o tempo. 
Hesitaes, faltas a consultas marcadas, declaraes contraditrias, palavras defensivas, 
desconfiadas ou agressivas, confiana cega, desistncia em face de uma deciso a 
tomar. Querem eles realmente que seu filho mude? Podem quer-lo? O que na verdade 
querem? Sabero o que querem? Pressenti-lo-o? A solicitao inicial pode ocultar-se 
completamente atrs de outras ou desaparecer com a evocao de sofrimentos antigos. 
Ou ento  algum outro membro da famlia que solicita a ajuda. . . A solicitao, se lhe for 
dado tempo, e se estivermos dispostos a ouvi-la em sua complexidade, desdobra-se, 
desenrola-se, diversifica-se, rami-
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fica-se, desloca-se, reabsorve-se. . . Vai se ampliando  medida que modificaes e 
remodelaes se desenvolvem  sua sombra. 
 sua sombra ou a descoberto. Assim, uma solicitao ou um de seus desvios pode 
suscitar a interveno sbita e violenta de um av que no se teria imaginado estar 
preocupado com ela. De repente, no so mais as relaes da criana com seu pai o 
centro da conversao, mas as do pai com seu prprio pai. Ser necessrio, talvez, que 
se transcorram semanas ou meses at que os solicitantes tenham metabolizado esse 
dado importante que se tornou manifesto: querem ou podem eles defrontar-se com o av? 
Decidir por eles, depressa demais, seria talvez coloc-los numa situao insuportvel que 
os privaria de seus prprios recursos de ordenamento, de defesa, de afirmao. 
Equivaleria a declarar-lhes que  preciso enfrentar o av, quando provavelmente eles 
no so capazes disso hoje. O mais arguto e o mais experiente dos terapeutas pode 
saber melhor do que os interessados o que eles podem desejar neste ou naquele 
momento? No haveria risco em atribuir-lhes uma posio impossvel de sustentar sem 
pnico ou depresso... ou ruptura? O tempo que passa, diferente para cada um  no 
decorrer do qual as configuraes da vida pessoal e familiar se fazem, se desfazem, 
conquistam mais vida ou se estagnam , nada tem a ver com o planejamento de um 
especialista ou de uma consulta. No teria o nosso tempo de estar a servio dos 
consulentes? 
Outros consulentes apegar-se-o a uma solicitao que ir amadurecendo, consolidando-
se rpida ou lentamente. Por que escolher em seu lugar o momento da deciso? Por que 
despoj-los dessa escolha? Afinal, trata-se da vida deles. 
Ainda outros podero manter-se agarrados a uma solicitao elementar: ele no aprende 
a ler; gostaramos que fosse reeducado; ele tem pesadelos; o que fazer para que durma 
bem?:  um inferno na escola, ou em casa; gostaramos que fosse uma criana mais 
calma. Em resumo, o que se solicita  a supresso de um sintoma, muito simplesmente, 
somos tentados a dizer, com a idia de que assim tudo iria bem, como antes, ou como 
se deseja. As perguntas habituais sobre o
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passado da criana e a vida da famlia suscitam respostas pobres. O sintoma  dado 
como isolado ou como tendo sido, evidentemente, causado por tal medicao ou 
acontecimento. 
Ser necessrio, nesses casos, chegar a uma concluso com a rapidez que interessa aos 
solicitantes? No ser mais conveniente dar uma trgua que lhes dilate o tempo? Muitas 
pessoas, que esperam um procedimento mdico e se encaixam nesse molde 
(apresentm sintomas e solicitam uma receita), ficam, no comeo, desorientadas quando 
se lhes prope um prazo ou outras entrevistas, pois esto desejosas e so capazes de 
utilizar esse campo que se lhes abre. Propor um prazo, uma outra entrevista, no significa 
que o solicitante possa pensar em outras coisas que julgue til dizer, ou que talvez no 
tenha dito tudo, ou, ainda, que o terapeuta esteja disposto a ouvir mais. 
Para muitas dessas pessoas,  a primeira vez que algum depreende algo mais em 
suas declaraes e, com efeito, assim elas percebem que tm outras coisas a dizer, j 
que esto sendo ouvidas. 
A relao com o si-mesmo passa pela relao com o outro. Nosso modo de ouvir algum 
faz parte do modo como ele ouve suas prprias palavras, percebe suas emoes, se situa 
em relao a estas. Todo terapeuta certamente j se deparou, por exemplo, com uma 
me descobrindo que, como no a criticam por ter abandonado seu filho pequeno, pode 
confiar-lhe algo da imensa aflio silenciosa que a levou a esse ato; ou com um pai 
dando-se conta de que suas palavras agressivas so interpretadas como testemunho de 
uma infncia humilhada, superada aos trancos e barrancos, e que pode, por isso, evocar 
agora esse passado e mais tarde elabor-lo. A qualidade de nossa escuta e o comeo de 
uma transferncia deixam aos consulentes a possibilidade de modificar sua solicitao 
inicial. 
M. Balint descreveu como, em consultas mdicas, durante uma espcie de negociata, o 
mdico escolhe, entre as queixas e os sintomas oferecidos por seus consulentes, 
aqueles que ele pode organizar numa configurao que sabe denominar e tratar. Por isso 
no se ocupar de certas queixas, embora insistentes, porque no sabe o que fazer com 
elas, e construir um quadro clnico pelo qual pode responder. Nesses casos, o pa-
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ciente consente, de certo modo, que sua queixa seja apagada, a fim de chegar a um 
acordo com seu mdico e conseguir ser tratado. Evidentemente, ela ressurgir mais 
tarde, em outra parte, com um outro mdico, ou ento transferir-se- para outro ponto, 
para ento ser tratada. L. o caso, s vezes, das queixas morais  depresso, fadiga  
que acabam encontrando uma expresso somtica  
Procuramos, ao contrrio, deixar o solicitante explorar e organizar ele mesmo o campo de 
suas queixas, confirm-lo, modific-lo, reorganiz-lo  sua vontade, por etapas ou de 
sbito. O importante  que possa fazer seu caminho. De nosso ponto de vista, a condio 
para isso  no excluir nenhuma de suas queixas, no lhe fechar nenhuma via de 
explorao e, no que nos diz respeito, no qualificar negativamente nada do que ele nos 
fornece. 
Se nossas aberturas no podem ser utilizadas ou muito pouco delas o podem,  oportuno 
reconhecer o limite apresentado e respeit-lo. Todos tm seus limites. O que nos autoriza 
a transp-los? Os riscos em faz-lo so reais e no podem ser medidos. A tentativa de 
violao suscitaria um fortalecimento das protees ou ento uma ruptura do processo e 
no permitiria de modo algum o desenvolvimento de um processo analtico. 
Um exemplo esquemtico: uma reeducao da leitura  solicitada para uma criana que 
tambm a deseja. O terapeuta consultado pensa que a dislexia est ligada a importantes 
problemas familiares, cuja abordagem, porm,  impossvel: a famlia defende-se dela e 
s deseja colmatar como dizemos,
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uma tenso, uma perda, um sofrimento. Se no apreenderam a abertura que lhes foi 
oferecida, consideramos que, de momento, no podem fazer mais nem melhor do que 
colmatar. Isso  mau? . proibido colmatar? No  isso que cada um de ns faz 
cotidianamente, inclusive os analistas? Pode-se forar algum a se envolver num 
processo analtico sem que realmente o queira? Seramos missionrios da psicanlise, 
sustentando-a como a nica via de salvao? Insistamos em outro aspecto: nada pode 
favorecer mais uma evoluo posterior do que o respeito manifestado aos atuais limites 
dos consulentes. Eles podero eventualmente voltar, sabendo que no sero saturados 
com perguntas inquisidoras ou com uma prescrio. 
Ainda um outro ponto. Escutemo-nos marcando nossas consultas: Espero-o daqui a uma 
semana, ser chamado em quinze dias, quero ver seu marido. Podem-se justificar tais 
formulaes? Sem dvida, elas facilitam a organizao do nosso tempo, mas e quanto 
aos consulentes? Um deles fala bastante e fornece painis de um passado penoso. Como 
saberamos se ele tem necessidade de um ms para metabolizar o que revelou, ou se tem 
pressa de liberar a seqncia? Se lhe dizemos: 
Quando deseja voltar?, e isso no final de cada entrevista preliminar, ele estar livre para 
conduzir seu processo como melhor lhe aprouver, ora num ritmo, ora em outro. 
Em muitos lugares de assistncia  criana, quase no se leva em conta seus pais, mas, 
s vezes, um deles  convocado e fica-se muito surpreso por seu no comparecimento! 
Os pais, aos quais escrevemos para cientific-los de que estamos  sua disposio e de 
que todas as informaes dadas por eles sobre seus filhos so importantes para ns, 
comparecem. 
Tambm, nesse caso, necessitaro, talvez, de pouco (ou muito) tempo para se decidirem, 
durante o qual todo um trabalho se faz, insubstituvel. Para alguns,  a primeira vez que se 
sentem considerados por algum como pais de seus filhos; no nos surpreendamos se 
precisarem de um prazo para ocupar o lugar que lhes oferecermos, seu lugar * 
13


 
Dilatar o tempo , evidentemente, dilatar o tempo das lembranas, das associaes, das 
mobilizaes e das reformulaes. Abordamos mais adiante o tipo de formulaes que 
favorecem essa dilatao. 
O avesso da solicitao 
Toda solicitao de pais referente a seu filho tem seu avesso. A vertente inconsciente de 
seus desejos  cmplice dos distrbios da criana, constitui suas razes, mas eles no o 
sabem. 
Olivier tem perodos de mau aproveitamento escolar. Sua me explica, sem se aperceber 
do alcance de suas palavras, que se sente freqentemente deprimida e que as 
dificuldades de Olivier a fazem sair de sua depresso, pois sente-se til ao ajudar o filho 
em seus trabalhos escolares. Em outras palavras, as dificuldades de Olivier prestam um 
servio  me, embora ela se queixe disso. 
Marie, de cinco anos,  autista. No fala, no se interessa por nada, exceto por estar perto 
de sua me, que deve cuidar dela como de um beb decidido a no crescer. Seus pais 
pedem uma psicoterapia para ela. As entrevistas preliminares estender-se-o por vrios 
meses. 
14



Num primeiro tempo, pai e me, alternadamente, revelam, expressam seu sofrimento 
diante do estado de Marie, do destino que imaginam estar-lhes reservado. Num segundo 
tempo, pouco a pouco, aflora o avesso; depois, revela-se por completo. Podemos resumir 
assim seus desejos de dupla face: que Marie seja autnoma, mas continue sendo sua 
filhinha; que ela seja ativa, mas somente na rbita deles; que ela fale, mas que seja das 
palavras deles; que ela seja algum, mas sem que por isso eles sejam simplesmente 
pai e me; que ela seja inteligente e bem-sucedida na escola, mas no faa perguntas 
sobre um drama antigo que marcou a famlia. 
Os pais de Irma multiplicam os procedimentos e os esforos para que sua filha fale. No 
decorrer das entrevistas preliminares, o pai confessa no poder suportar que sua filha o 
chame de papai; s essa idia  bastante para lan-lo num estado de tremendo 
pnico, que o faz morrer de angstia. Progressivamente, ele pode falar de sua angstia, 
das provaes passadas, que lhe fechavam o acesso  posio de pai:. uma infncia 
vivida numa relao francamente dramtica com o pai tornava inimaginvel para ele que a 
relao pai/filha pudesse no veicular tudo o que tinha conhecido de insuportvel, de 
destruidor. O pai de Irma pode ser orientado em seu pnico e acompanhado, a seu 
pedido, num lento e doloroso trabalho, no decorrer do qual cada etapa de progresso em 
sua 
15


filha leva-o a enfrentar seu medo de morrer de angstia, assim como momentos de 
descompensao em que se reatualizam os dramas passados. E em seu receio de 
imobilizar o futuro de Irma que ele vai buscar foras para avanar ele mesmo num terreno 
perigoso. A solidariedade dolorosa entre o pai e a criana tem de se manifestar muito 
alm da distino do meu e do teu, pois  o prprio sentido da paternidade e da 
filiao que lhes  imposto de maneira dramtica na histria da famlia. 
V-se que no subscrevemos a idia corrente, segundo a qual os pais tm de se 
requestionar, de fazer sua autocrtica, em suma. Pois essa  uma concepo atomstica 
da psicologia, que nos leva a crer que a relao entre pais e filhos assume a forma de leis 
gerais condicionais, do tipo: se os pais tm tal comportamento, da resultar, em todos os 
casos, tal conseqncia para a criana. De fato,  a configurao familiar em seu conjunto 
que torna compreensvel, retroativamente, o comportamento de cada um, numa situao 
sempre singular, historicamente datada. As reaes de cada um agregam-se ou 
combinam-se num efeito de conjunto que, propriamente dito, no  desejado por ningum, 
mas que, por uma espcie de causalidade circular, motiva em resposta as atividades dos 
diversos membros da famlia. 
E essa causalidade circular (entre a comunidade familiar e seus membros) que constitui o 
aqui chamado de o avesso da solicitao de psicoterapia. E esse segundo nvel de 
sofrimento que vai ser despertado pela consulta e tender a mobilizar-se em vista de 
novos compromissos. Convm dar aos pais o tempo de pressentir, quando no de 
descobrir, o que os aguarda, antes de se tomar a deciso de tratamento. As entrevistas 
preliminares devem deixar aflorar esse avesso, a fim de que, a partir da, possa iniciar-se, 
nas declaraes dos pais, um movimento de vaivm entre a aflio da criana e a deles. 
Os desejos dos pais tm duas vertentes, e tudo acontece sempre como se a criana 
estivesse fazendo esforos para satisfazer a ambos; por isso, seu sintoma, sua resposta, 
tem duas vertentes, sutilmente dosadas segundo o que os pais podem viver. 
Um menino de sete anos, portador de um quadro grave, faz notveis progressos na 
instituio onde foi colocado. Quan-
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do volta para casa, regride ou adoece. Pode-se compreender o que comunica nessa 
configurao: eu progrido, mas no demais; sou sempre seu pequeno, o filhinho que sua 
angstia receia ver grande e ativo. 
Observei que uma criana autista em tratamento, durante uma fase em que suas 
conquistas eram marcantes, amortecia-as ou anulava-as, transformando-as, numa 
proporo semelhante, em tiques. as palavras novas, no incio empregadas corretamente, 
eram depois repetidas de modo mecnico, vazio; o mesmo ocorria com as novas 
capacidades: o sorriso recm-surgido em seu rosto convertia-se pouco depois em uma 
careta. Os progressos da criana, nesse momento, colocavam um de seus pais em perigo 
vital. Isso era mais do que podia ser suportado; a criana esperava que ele evolusse; 
durante anos, ela progrediu no mesmo ritmo de seu prprio genitor. 
Pelo contrrio, Aline, seis anos, asmtica, uma enferma grave, cujo estdo de contnua 
dispnia  acompanhado de emagrecimento e hipotrofia impressionantes  de acordo 
com o pediatra que a assiste  levou sempre a dianteira em relao  me, ao longo de 
seus tratamentos paralelos. Diversas formas de tratamento foram empregadas sem xito; 
a psicoterapia apresentou-se como a ltima esperana de melhorar o estado de Aline. Os 
resultados foram rpidos, surpreendentes por sua rapidez, mas a transformao de Aline 
estava dentro do limite que sua me podia metabolizar, a tal ponto estavam 
desmanteladas suas prprias posies. Com violncia, ela faz declaraes como estas: 
Quando esse tratamento estiver terminado, eu a porei num pensionato, ela ver! ; Ela 
agora no tem crises,  tudo pura maldade! ; Gostava mais quando ela tinha asma; Ela 
come bem, no ofega, eu estou mais ofegante do que ela, se  isso a cura da asma! ; A 
asma era mais agradvel para todos; eu cuidava dela; agora afasto-me, ela  maldosa 
demais! Se nos lembrarmos de que Aline escapava a um perigo vital, avaliaremos a 
violncia do reverso dos desejos da me e o perigo de descompensao que ela teve de 
enfrentar. 
Chamar a ateno para o fato de que uma resposta de dupla face seja oferecida pela 
criana ao desejo de dupla face dos pais no  dizer que a situao no tenha sada, mas 
que ela s se modificar na interao das duas faces dos desejos de
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cada parceiro.  til que. essa dinmica seja iniciada assim que 
seja tomada uma deciso de tratamento. 
No se pode desejar que uma criana, os pais, uma famlia, sejam colhidos numa 
deciso e numa situao de tratamento cujas implicaes, conseqncias, 
desenvolvimertos, no podero suportar. Ningum tiraria benefcios de tal aventura, e o 
futuro seria prejudicado. 
Poder-se-ia resumir assim o que se realiza no decurso de todo procedimento analtico: 
algum, pouco a pouco, distingue o que aspira e quer daquilo que foi aspirado e querido, 
no passado, daquilo que aspira e quer para si, no presente. A situao de anlise torna 
esse encaminhamento possvel. A, .tudo o que se quer para esse algum  acompanh-lo 
na elucidao que deseja fazer,  facilitar-lhe essa tarefa. Ser concebvel que esse 
processo, em condies rigorosas, possa desenvolver-se em bases que o contradiriam? 
A coerncia de nossa posio exige que os solicitantes sejam tambm os que decidem. 
Ofereamos-lhes, pois, um espao e um tempo de fala no qual tenham as melhores 
oportunidades de descobrir um pouco, um pouco mais, s vezes muito mais, o que suas 
solicitaes envolvem. 
Aconselhar tal pessoa a fazer uma psicanlise  misturar o projeto, ainda vacilante, que 
ela pode ter com aquele que se quer dela,  retirar-lhe a possibilidade de querer por conta 
prpria. 
Em muitas instituies, as admisses so decididas sem que o paciente o tenha pedido. 
Nesses casos, a solicitao procede da escola, do terapeuta, do mdico, da famlia. H 
uma interferncia instituda na relao do indivduo consigo mesmo. O analista, graas a 
quem se considera que o paciente emerge de suas contradies, de suas angstias, de 
seu desconforto, desconhece, no comeo, quem quer o qu. Age-se como se o suposto 
paciente quisesse algo, quando  aquele que se oferece  transferncia que lhe pede 
para evoluir, para sarar. Que coerncia poderia ter um mtodo fundamentado em tal 
equvoco? As pessoas, crianas ou adultos, que nele se vem envolvidas nada tm de 
tolas: algumas produzem um material abundante sem que nada mude para elas; 
esforam-se, simplesmente, para satisfazer a solicitao do terapeuta, da instituio; 
outras respondem pela violncia de palavras ou atos  violncia
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que lhes  feita; outras utilizam a situao de um modo ldico, ertico, sem que as 
intervenes do analista tenham se ocupado delas etc.; ainda outras, sob uma forma mais 
ou menos direta, perguntam-nos: O que quer de mim? Pergunta freqentemente 
formulada, mas poucas vezes entendida. 
Por outro lado, aceitar precipitadamente uma solicitao de psicoterapia, antes que a 
segunda vertente, o avesso, tenha aparecido, tem um aspecto de impostura.  como se 
quisssemos dizer: Entendido, vamos trabalhar para suprimir esses sintomas; isso 
deveria ser possvel sem modificar mais nada. Ora, isso  falso, como sabemos. O 
desaparecimento de um sintoma (o que no se deve confundir com um deslocamento do 
sintoma)  acompanhado de modificaes dos bloqueios e das posturas libidinais;  uma 
personalidade inteira que se reorganiza de modo diferente. Uma criana indolente na 
escola, passando a esforar-se, pode, simultaneamente, tomar-se menos obediente ou 
ativa em domnios que seus pais desaprovam; uma menina que passa a compreender 
suas lies, quer tambm entender o que  ser menina ou menino, quando seus pais no 
esto preparados para responder a tais perguntas etc. 
Sugerimos uma orientao do trabalho clnico, no perodo das entrevistas preliminares, 
segundo a qual conviria deixar aos consulentes a liberdade de deciso e todo o tempo 
necessrio para a chegar. Assiste-se ento, com freqncia, a deslocamentos, 
insistncias na solicitao, recuos, desvios, mutaes, avanos, acomodaes de toda 
espcie. Explicaremos mais adiante as razes que nos impelem a respeitar o que as 
pessoas podem pr em jogo quando buscam uma sada para seus sofrimentos. 
Interrogar ou convidar a falar? 
No queremos abordar o conjunto de questes que toda a conduta de entrevista envolve, 
mas somente indicar uma direo de trabalho, uma orientao. 
Ao contrrio do que sugere o termo interrogatrio, 
nosso objetivo no ser, em primeiro lugar, uma coleta de informaes, mas o 
estabelecimento de uma situao tal em que os
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consulentes possam falar tanto quanto o desejem fazer, no mais. 
Por que no mais? Por respeito a eles, por seus limites presentes, e porque a melhor 
maneira de induzir qualquer um a evoluir  ouvir sua solicitao, seu sofrimento, e no 
forar ou desmantelar suas protees. O problema que nos  trazido no  apenas aquele 
referente  sintomatologia de uma criana, mas tambm a impossibilidade dos 
consulentes de serem diferentes do que so, de verem as coisas de outra maneira, de 
reagirem de outro modo - - - O dado de nosso trabalho  esse conjunto. Esforar-se para 
modificar as reaes dos pais ou de uma criana (por conselhos, perguntas demasiado 
brutais que visem coloc-los diante do que nos parece evidente...)  uma burla e um risco. 
Admitir que os membros de uma famlia so solidrios em suas respectivas posies  
assumir que toda modificao sobrevinda numa criana suscita modificaes nos pais, na 
fratria e at nos avs. Se admitirmos a hiptese da distribuio parental, que propomos 
no captulo 2, segundo a qual a criana responde por sintomas s questes arquivadas na 
primeira infncia, teremos de convir que, se essa criana melhora, seus pais devero 
abster-se da resposta que ela lhes oferecia antes ou reformular suas posies. Podero 
faz-lo?  implicitamente a pergunta que lhes colocamos quando os convidamos a falar. 
Convidamo-los a desenvolver, a balizar o espao das modificaes possveis, o espao 
no qual um eventual processo analtico poder se desenrolar. Localizao do ponto de 
vista deles; do nosso por conseqncia. 
No procuramos ir ao fundo das coisas, apesar da iluso, que nos  costumeira, de 
pensar que apreendemos o conflito ou o drama, causa de tudo isso. Estamos atentos ao 
que eles buscam, hoje, ao que eles querem e podem pr em jogo. 
Talvez seja til lembrar, aqui, que muitas psicoterapias so interrompidas porque a 
Criana melhora. Ela comea a melhorar, quando as entrevistas preliminares ainda no 
permitiram balizar o campo das reformulaes possveis. Os tratamentos estagnam ou 
so interrompidos, de um modo ou de outro, 
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no momento em que so atingidas as fronteiras das mobilizaes que a famlia  capaz 
de empreender. 
O fato de que somente um terreno limitado tenha sido exposto pelos consulentes no 
constitui obstculo ao estabelecimento de uma psicoterapia. Por um lado, o que ser 
encaminhado pode suscitar uma ampliao desse campo, com o correr do tempo;  mais 
freqentemente o caso quando se permanece atento ao que os pais tm a dizer durante o 
percurso. Por outro lado, pode-se indagar por que seria necessrio um tratamento ir at 
um ponto por ns fixado, que julgamos ser o ponto final de um tratamento bem-sucedido. 
Isso supe considerar somente a criana, fora do contexto, sem vnculos, filha de nossa 
imaginao e no uma crianiviva, filha de tal pai e tal me. Por que, pelo contrrio, nisso 
concordando muitos consulentes, no prever etapas, seqncias, fatias de recomeos 
sempre abertos aos consulentes, no planejadas por ns, mas como eventualidades? 
Percorrer uma etapa pode ser muita coisa: uma conquista que muda a vida, uma 
separao, um trampolim para reconstrues que prosseguiro sem ns ou, mais tarde, 
conosco . 
Indaguemo-nos agora quais so os tipos de perguntas, de 
formulaes, que podero estimular a falar, seni pressionar. 
Antes de tudo, a fim de que os consulentes abordem o que querem e como o querem,  
bom que nossas primeiras palavras abram um campo muito vasto, no definido. Por 
exempio: Diga-me o que lhe parece importante, ou Diga-me o que lhe parece til. 
Num segundo tempo, esquematizando, suponhamos que sintomas, infortnios, eventos, 
tenham sido mencionados e precisemos agora retomar o dilogo. Deveremos escolher os 
pontos a partir dos quais recomear: ponto de intensidade, de obscuridade, de repetio, 
de inslito. . . Como recomear sem fechar as vias de deslocamento, de derivao? 
Tambm a, ampliando ao mximo o campo que oferecemos. Proporemos que se fale 
mais sobre determinado ponto, recorrendo ao presente, ao passado, ao ambiente lato 
sensu: Voc disse que sentiu muito
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medo nesse dia. Tinha conhecido um medo ou uma emoo to forte antes? Um medo 
como esse o faz pensar em outros, ou, talvez, em medos de que tenha ouvido falar? A 
impresso de ter os movimentos bloqueados, diga-me, com o que isso se parece? 
Num terceiro tempo, ser sempre til fazer a abertura na direo dos ascendentes. Se for 
um problema de depresso, por exemplo: Fica facilmente deprimido em casa? O em 
casa demarca uma referncia o mais ampla possvel. Ou ento: J conheceu pessoas 
deprimidas? 
A abertura na direo dos ascendentes significa, para o consulente, que poderiam ser 
descobertos ou reconhecidos vnculos entre a patologia, que motiva a solicitao, e a vjda, 
as experincias, os sofrimentos de outros. Maneira de dizer: Vocs esto ligados uns 
aos outros. Sabemos disso. Cabe a voc dizer o que quer, lhe parece til, suporta 
esclarecer ou questionar. Alguns diriam que isso significa reconhecer a homeostase 
familiar sem amea-la. 
Enfim, dispomos de perguntas que pedem um comentrio familiar. O que se comenta 
na famlia a respeito disto ou daquilo?, O que acha disso seu marido? Sua me?. . . , O 
que pensa disso sua sogra? Perguntas preciosas, porque, nas respostas que lhes so 
dadas, desenha-se ou esboa-se a topografia familiar. Entende-se como as diferentes 
pessoas das diferentes geraes utilizam aquilo de que se fala, o que fazem disso, o que 
significa para elas. Para alguns familiares, o caso ser grave; para outros, no  nada 
de grave, as coisas se resolvero por si mesmas; para uns, j se esperava por isso; 
para outros, isso vem do parto; para um, v-se que ele no saiu aos nossos; para outro, 
h qualquer coisa de anormal;  como a minha irmzinha que morreu de uma anomalia 
do corao. . . Com freqncia,  atravs desse tipo de enunciados que mais bem se 
localiza o lugar que foi oferecido  criana no cruzamento de duas linhagens: ser prova de 
fecundidade, substituir uma perda, reformular a questo da anomalia das filhas etc. 
Ainda uma observao: as perguntas sobre o como so 
mais proveitosas do que aquelas sobre o porqu. Estas ltimas requerem uma 
explicao: Por que fez isso? Voc pen-
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sou nisso? Suscitam racionalizaes e tendem a fechar as vias associativas. Pelo 
contrrio, Puxa, como isso foi possvel?, Como assim?, no excluem nenhum tipo de 
resposta e permitem estabelecer vnculos com elementos que no poderiam ter lugar 
numa explicao. 
O conjunto de falas de uma famlia pode ser ouvido como uma partitura sinfnica, em que 
cada pessoa sustenta sua parte. Ele possui coerncia interna, que, como se ver nos 
casos clnicos,  feita daquilo que cada um utiliza, em seu registro pessoal, dos traos 
familiares repetitivos, que lhe servem para situar-se em face das diferenas de sexo e de 
gerao, assim como para projetar-se no futuro. 
Pode-se pensar que as entrevistas preliminares permitiro uma deciso de tratamento 
analtico vivel, quando elas tm um carter polifnico, quando utilizam vrios registros, 
entre os quais so pressentidos, esboados ou fixados vnculos: registros do presente, do 
passado, descrio de eventos, de emoes, vivncia pessoal, vivncia e fala referentes 
 entourage, eventualmente a evocao de um sonho ou de uma associao espontnea 
(que muitas vezes surpreende aquele que fala:  o caso da me de Julien, descobrindo a 
origem de suas insnias). A polifonia, a rede de relaes que ela desencadeia, indjca que 
uns e outros podem, querem mobilizar suas posies, portanto que esto abertos a uma 
psicoterapia, um campo em que outras mobilizaes, novos esclarecimentos podero ter 
lugar sem inconvenientes para ningum. 
Em seu ltimo livro , Piera Aulagnier fornece, com o caso de Philippe, uma ilustrao do 
que  uma entrevista nopolifnica. Os pais desse jovem utilizam-se de uma nica pauta: 
a memria est excluda, interditada, as emoes no tm lugar, o acidente  a causa 
de todos os sintomas (psicticos). Essa causalidade  a nica conexo estabelecida 
pelos pais, a nica aluso que se pode obter deles. A implacvel rigidez das mesmas 
falas repetidas, jamais modificadas, por pouco que seja, inspira uma espcie de terror. 
Somente uma fissura nos  mostrada no concreto da fortaleza parental, um ponto de 
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emoo no pai, tnue, evasivo, ligado a uma lembrana longnqua.. 
Certamente formularemos tambm questes precisas, mas se elas foram precedidas, 
grosso modo, pelos tipos de perguntas sugeridas acima sero mais pertinentes, mais 
bem centradas, mais perto daquilo que est em jogo. 
A atitude geral que tentamos descrever no pretende eliminar a idia de diagnstico; na 
verdade, confere-lhe um lugar distinto daquele que lhe  mais freqentemente concedido: 
em vez de orientar inteiramente nossas palavras, o diagnstico pode permanecer num 
nvel secundrio, como uma voz off no cinema. Teremos a preocupao de as hipteses 
diagnsticas que nos formulamos no se converterem num roteiro para as declaraes 
dos consulentes. Essas hipteses podem servir-nos de antenas, tornar mais sensvel 
nossa escuta; permitem-nos comparar o caso presente com outros; mobilizam em ns 
toda uma rede de experincias, de conhecimentos; descentralizam utilmente nossa escuta 
pelo fato de constiturem um outro plo de nossa ateno. 
Por outro lado, o diagnstico pode ir muito alm da nosografia. A decifrao dos laos de 
uma famlia e das possibilidades de mobilizao de seus membros pode ser considerada 
uma forma de diagnstico. E o uso do diagnstico que se presta  discusso: para uns, 
ele autoriza que se conclua e se prescreva; para ns, nada mais faz do que esclarecer, 
tentar esclarecer as coisas e acompanhar os consulentes em suas indagaes. No 
autoriza que estes sejam por ele substitudos na deciso do que fazer 
A transferncia 
A durao das entrevistas preliminares tem sido freqentemente comentada no seguinte 
sentido: convm limitar essa durao sob pena de que se desenvolvam transferncias e 
de que os solicitantes se vejam em dificuldades, se no for dada seqncia a suas 
solicitaes. Pode-se estar de acordo com esse ponto de vista quando o terapeuta 
resolve prescrever um tratamento ou uma reeducao, pois  ele quem, considerando 
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impossvel acolher uma solicitao, poria fim s entrevistas, 
deixando em suspenso, por vezes, transferncias importantes. 
Na posio que sustentamos, as coisas passam-se de outra maneira: visto que so os 
solicitantes que regulam o ritmo de seu processo, eles no interrompero entrevistas que 
lhes permitem vver, empreender transferncias que se tornaram importantes. Mesmo 
quando uma srie de entrevistas no resulte em encargo teraputico, isso se deve ao fato 
de existirem transferncias que a durao amplia e de um trabalho poder ser ento 
realizado (desdobramento da solicitao, novos esclarecimentos, modificaes de 
posies. . .). 
E mais: parece que muitos consulentes, no decorrer das entrevistas preliminares, apiam-
se na transferncia a fim de realizar reformulaes que podem ser considerveis.  esse, 
com freqncia, o caso daqueles cuja solicitao revela ser, em ltima instncia, a 
necessidade de obteno de um referencial. 
Evocamos, nessa situao, famlias que podem parecer fortemente perturbadas, mas nas 
quais este ou aquele membro seja capaz de mudar. s vezes, todo um trabalho 
subterrneo foi realizado anteriormente, o qual apenas pede para ser exposto, 
reconhecido. Assim  o caso de um pai que gostaria de se interpor entre a esposa e o 
filho, mas no se atreve a faz-lo. Ou o caso de uma me que deseja passar suas frias 
em famlia, longe dos pais, mas no tem coragem para tanto. Pode ser suficiente que 
tais desejos sejam compreendidos, reconhecidos, para que esse pai, essa me, se 
coloquem numa nova posio, o que ir permitir um avano construtivo na famlia. Trata-
se, na realidade, da obteno de um novo referencial, de uma reformulao de 
configuraes edipianas. 
Nestes casos, se no se desse aos consulentes tempo suficiente para elucidar o pedido 
de reconhecimento, se no se acompanhasse sua mutao, o risco seria o de fixar um 
problema, o das confrontaes entre a me e seu filho, por exempio, de o isolar, quando 
est prestes a ser resolvido ou, pelo menos, modificado, graas  mudana de referencial 
que o pai pode efetuar. 
Por que se diz, justamente, que a primeira entrevista  de 
particular importncia? Porque, freqentemente, percebe-se
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tarde demais que o essencial do desenvolvido durante o tratamento j ali se encontrava 
enunciado ou mostrado  disposio. No so as informaes dadas que so 
particularrnente importantes, mas sua tonalidade e sua formao. Alguns falam das 
perturbaes do. filho justificando-se, outros culpando-se, outros apegando-se a uma 
etiologia mdica ou circunstancial, referindo-se a uma das linhagens ou a um membro da 
famlia: 
Ele  como... Tenho medo que ele seja como... No existe entrevista sem transferncias, 
isto , sem deslocamentos mltiplos no s para a pessoa do analista como tambm para 
membros da famlia. 
em parte, por existir transferncia que recusamos as atitudes prescritivas ou de conselho, 
o que equivaleria a induzir as projees do consulente sobre o terapeuta, enquanto 
especialista, doutor ou pai (me), detentor do que  bom para ele... Suponhamos 
que aps ter prescrito ou aconselhado, quisssemos, em outra ocasio, assumir o lugar 
de analista. Este seria prejudicado pelo ato de prescrio que lhe  contrrio e cuja 
continuao seria um desmentido. 
O problema  da mesma espcie quando um analista recebe algum por prescrio de 
um outro. Isso  freqente. Convm ento livrar-se daquele que prescreveu e abrir o 
caminho para eventuais crticas ou reticncias, para discordncias que no teria sido 
possvel exprimir. Basta uma pergunta. Por exemplo: O que foi que pensou quando o Dr. 
X lhe aconselhou uma psicoterapia? Isso corresponde ao que voc desejava? Teria voc 
mesmo pensado nisso antes? A situao  assim reformulada. Torna-se mais clara, 
portanto mais s. O analista no quer uma psicoterapia para esse consulente; averigua o 
que ele deseja. 
As palavras introdutrias de um tratamento 
As palavras do analista que iniciam um tratamento so de um nvel diferente das ditas 
durante o tratamento. 
Afirmamos acima que as palavras, que acolhem a solicitao do consulente e depois o 
acompanham at uma deciso, 
definem um campo no qual poder, ou no, desenrolar-se um 
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processo analtico. Dois exemplos para nos fazer compreend-lo. 
Um tratamento para uma criana psictica  pedido com insistncia por sua me. O pai 
acha que a loucura da me  responsvel pelos distrbios da criana e que no  uma 
psicoterapia o que mais convm. O analista insiste repetidas vezes para obter o acordo 
do pai. Algumas entrevistas terminam numa frmula ambgua: No tenho muita confiana 
nessas coisas, mas se voc acha. . . !  iniciada a psicoterapia. A criana progride 
durante um certo tempo, depois estagna: 
fantasias repetitivas, avanos e recuos na vida. . . Passam-se meses, anos, depois nada 
se altera, quando ento a solicitao da criana no oferece a menor dvida. 
O analista percebe, nesse meio tempo, que o pai foi afastado da deciso e que, tendo por 
referncia unicamente o de- seio da me, agrava-se a situao da menina em sua vida 
familiar. Admitido esse erro de colocao, o que se poderia fazer agora? 
Se o analista, no decorrer do tratamento, se esforou por referir-se ao pai e relacion-lo 
com a criana, ele no fez outra coisa seno complicar a situao e negar as bases do 
processo; teria querido dizer  criana: O papai no teve peso na deciso sobre este 
trabalho para ajudar voc a crescer, mas vamos fazer como se ele tivesse tido. Isso foi, 
ao mesmo tempo, desqualificar-se como parmetro e embaralhar, para a criana, as 
possibilidades de referenciais identificatrios. A inteno correta de ser garantia da 
referncia ao pai no pode, em absoluto, abolir o fato, agora independente das pessoas, 
de que tais dados iniciais foram estabelecidos. A durao, a extenso da psicoterapia, 
no podem alterar isso em nada. 
O nico modo de acesso a uma mudana  a retomada desses dados com a criana, o 
pai e a me. Por exemplo, dizer  criana: Penso, agora, que comeamos cedo demais 
este trabalho. Seu pai no estava de acordo. Teria sido prefervel esperar que ele 
concordasse ou no em comear. Se voc quiser, poderemos voltar a falar com ele e 
decidir depois o que ser melhor. Neste ponto, a deciso de um tratamento  claramente 
reexaminada, cm tudo o que isso implica de in-
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certezas: processo retardado ou impossvel. Isso preserva a possibilidade de, agora ou 
mais tarde, ser redefinida uma situao correta, vivel. 
Uma menina  trazida  consulta por aproveitamento insuficiente no trabalho escolar. 
Desta vez,  o pai quem solicita a aceitao da criana, cujo fu:uro o inquieta. A me, por 
seu lado, no est preocupada; pensa que alguns progressos j se vislumbram e o tempo 
consrl:ar as coisas. E, alm disso, ela diz ser contra essas consultas que s servem 
para rotular as crianas, O terapeuta explica, nesse ponto, que no se trata de rotular, 
mas de procurar, isso sim, compreender. . . e a consulta prossegue, culmnando na 
aceitao da criana. 
Tal como no caso precedente, a opinio de um dos pais  desqualificada como apoio  
iniciativa de tratamento. Ao no estou de acordo com sia consulta, responde-se com: 
Seu motivo de discordncia nc  vlido por tal e tal razo. Portanto, no o levaremos em 
conta. Em vez de argumentar sobre a rotulao, num regist:-o que talvez no tivesse 
nada a ver com a reticncia da consulente, seria til convid-la a expor com preciso seus 
temores, suas imaginaes, e no a varr-los. Talvez pudessem ter sido dissolvidos ou 
superados, ou estivessem ligado a angstias, a questes colocadas no centro da vida 
dessa me. Impossvel sab-lo nessa etapa. Em qual- 
quer hiptese, teriam de ser levados em conta, sem prejulgar 
o que poderia seguir-se. 
Engaj ar-se no compromisso de tratamento de uma criana, quando se expulsou um dos 
pais do campo da deciso, equivale, queiramos ou no, a criar, para a criana, uma 
situao aberrante. Aceitando-se nossa hiptese da distribuio familiar, segundo a qual 
os ascendentes oferecem  criana os materiais com os quais 1a ter que se construir, a 
desqualificao do pai (ou me) implica a desqualificao dos referenciais e das 
questes por ele (ou ela) fornecidos; implica cortar razes insubstituveis - os dados 
iniciais podem ser elaborados, utilizados de diversas maneiras, mas no eliminados. 
Para uma criana abandonada, adotada, rf, o abandono, a adoo, a morte dos pais, o 
que ela ouviu dizer, perce-
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beu, adivinhou, so parcelas da distribuio inicial. As crianas adotadas ou que 
conhecem apenas alguns tnues elementos de seus genitores, aferram-se, em todos os 
casos, a esses dados, por vezes minsculos, a fim de se interrogarem sobre si mesmas. 
O fato de estarem bem integradas e felizes numa famlia adotiva, por exemplo, no 
extingue esse questionamento. 
Quando a distribuio parental  desqualificada, como poder a criana situar-se? como 
se, magicamente, nos oferecssemos como referncia no lugar de. . . No  a opinio 
de mame que conta,  a minha. Posio incompatvel com a do analista. Ser 
necessrio insistir nisso? Abandonamos, ento, o lugar a partir do qual diversas posioes 
podem ser entendidas sem que um juzo seja formulado, de onde elas podem defrontar-
se, ser mobilizadas, elaborar-se. 
Levar em conta os dados familiares ou, melhor, o que nos  dito, oferecido, e o que se 
deixa perceber para alm das declaraes dos consulentes pode ser muito, muito difcil. A 
complexidade do que as geraes teceram nas famlias no tem limites: podemos ser 
enganados pela aparente simplicidade do que ouvimos, ser mergulhados na confuso, 
levados para pistas falsas etc. Considerar os dados familiares no significa que tudo o 
que lhes diz respeito deve e pode ser claro, mas que nossa ateno no deve se desviar 
deles, por exemplo, renunciar a dar-lhes importncia porque tal genitor  difcil demais, 
porque o outro desconhece a gravidade dos distrbios de seu filho, porque um av pe 
obstculos ao processo que se inicia. No levar em conta um pai difcil ou um av que faz 
obstruo seria fabricar, com nossas prprias mos, com nossas palavras, um campo 
em que nos desqualificamos como analistas. 
Na base das psicoterapias de crianas que estagnam indefinidamente, que se 
interrompem, que so acompanhadas de uma deteriorao na famlia (depresso de um 
de seus membros, atos sintomticos, somatizaes. . .), encontra-se, na maioria dos 
casos, se as retomarmos posteriormente, uma colocao incorreta: o que no foi 
considerado retorna e no pode ser analisado sem uma retomada verbalizada dessa 
colocao. 
Nunca observei efeitos negativos ou prejudiciais de tais 
retomadas, mas, pelo contrrio, somente efeitos positivos no
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sentido de que os consulentes se encontram ento em condies de sentir ou de saber 
mais claramente o que querem e o que podem empreender. 
s vezes, durante as entrevistas preliminares, fica-se embaraado, porque as conversas e 
as consultas se prolongam no tempo, sem que a idia de uma deciso ganhe forma ou 
progrida. Entre as crianas mais crescidas, tal atitude no  rara: 
tm vontade de vir mais uma vez e depois?... No sabem. E, de consulta em consulta, vo 
ficando. No considero tal atitude negativa, ou de mau pressgio, nem que seja oportuno 
opormo-nos a ela; um trabalho pode ser realizado  sua sombra. O risco possvel  que os 
encontros se instalem num registro ldico, mais precisamente no registro do primrio. 
Expliquemo-nos. 
Qualquer um pode notar o discurso empregado por muitos analistas, quando descrevem o 
comeo de um tratamento ou quando querem justificar o prolongamento de um tratamento 
que estagnou. Eles dizem: A criana deseja vir ou a criana tem vontade de vir, 
subentendendo: portanto,  necessrio empreender o tratamento. . . ou  preciso 
prossegui-lo. Aqui, desejo, palavra mgica de nosso tempo e lugar,  utilizado num 
sentido vago, que pode justificar qualquer coisa, no importa o qu. O deslizamento de 
desejo para ter vontade de  testemunho disso. 
A criana deseja vir  a formulao do analista. A questo que se apresenta  criana, 
de acordo com as palavras empregadas, pode situar-se em dois registros diferentes: 
1) Voc tem vontade de vir. . . de voltar? 
2) Voc pensa ser til voltar?, Decide continuar?, O que acha melhor, continuar este 
trabalho ou suspend-lo 
por algum tempo? 
No primeiro caso, a criana  situada pelas palavras do analista no registro do primrio: o 
que predomina  aquilo que se tem vontade; o que decide  o que d prazer. No segundo 
caso,  no registro do secundrio que a criana se v interpelada. Ter vontade, encontrar 
prazer, no est excludo, mas  apenas um componente da deciso que leva em conta o 
(ou os) objetivo (s) perseguido (s)  s vezes a experincia de um perodo anterior do 
tratamento, as reaes da famlia, 
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o contexto escolar ou outro. Apela-se para o discernimento da criana. Por que no viria 
ela, no por ter muita vontade disso, mas por considerar o processo til? Ela vem para 
trabalhar e no para brincar, como foi sublinhado por Franoise Dolto h muito tempo. 
O verbo desejar  utilizado, simetricamente, para justificar que tal analista aceita tal 
criana em psicoterapia. No lhe cabe criticar o elemento pessoal  a 
contratransferncia que entra em jogo em cada deciso de aceitar o encargo , ms 
convm que esteja atento para que as vontades, de uma parte e de outra, no se tornem 
os nicos referenciais das decises a tomar. 
Os desejos, as vontades so questionveis, analisveis, e em primeiro lugar no analista. 
So apenas um dos componentes das decises: deciso de assumir um tratamento, de o 
suspender, de lhe modificar o ritmo etc. 
Expusemos longamente os elementos sobre os quais, segundo o nosso entender, deve 
assentar uma deciso de tratamento, para que este seja vivel, pelo que no voltaremos a 
cit-los. Retornamos, em vez disso,  situao que nos embaraava: como evitar o risco 
de validar o registro do primrio como registro de encontros? 
Sugerimos propor  criana acordos a curto prazo, do tipo: 
Voc concordaria em voltar a falar sobre o que decidir, daqui a quinze dias.., ou dentro 
de um ms? Suspenderei as consultas at l. Depois, voc me dir. Ou, ainda: Quer 
fazer a experincia de vir at o Natal? Pode ser que at l possa ver o que decide. Tais 
intervenes so uma maneira entre outras de recordar  criana a finalidade acertada 
das entrevistas, de insistir no elemento de acordo, na situao presente. A partir do 
momento em que h um acordo, o que se combina desliga-se das pessoas, escapa-lhes: 
estabelece-se um terceiro elemento, graas ao que foi celebrado entre uma parte e outra; 
a vontade, nesse caso, no regula apenas o procedimento. 
Tornar to presente o elemento de condicionar o processo  particularmente importante 
para as crianas, visto que, com elas, o dinheiro no desempenha esse papel como no 
caso dos adultos. 
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2. A DISTRIBUIO FAMILIAR 
Nas consultas para crianas, em que os pais so ouvidos, constata-se freqentemente 
que cada gerao menciona, por sua conta, os traos comuns  famlia, alis, muitas 
vezes sem que os interessados o saibam. Esses traos comuns assinalam-se por 
repeties e coincidncias. 
Podem ser eventos semelhantes que se reproduzem de uma gerao  seguinte. Citemos 
uma criana psictica que por pouco no  sufocada em seu leito com a amamentao. 
Um de seus tios paternos morrera beb em seu bero, sufocado assim. O antigo drama 
fazia parte de um segredo de famlia, supostamente bem guardado. No momento em que 
o segundo episdio vem fazer lembrar o primeiro, coisas caladas at ento so ditas. 
Segue-se uma reformulao importante nas relaes familiares. Temos aqui a repetio 
de um evento marcante que serviu de referencial identificatrio, ou seja, de revelador dos 
laos de pertena comum, no seio dos quais vm inscrever-se de modos diversos as 
posies pessoais de cada um. 
Em outros casos,  a coincidncia entre dois eventos que se encontra investida de um 
valor relacional. Assim, no caso de Julien, que exporemos mais adiante, uma me 
consulta-nos por causa das insnias de seu filho. Tendo o psicanalista lhe perguntado em 
que momento as insnias dela tinham comeado, a me deu-se conta bruscamente de 
que haviam comeado com o nascimento de Julien. A sobreposio entre as duas sries 
de fatos tem valor de interpretao: trata-se de uma insnia a dois.
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Outras vezes,  uma atitude que se repete, escandida como um refro. Uma jovem foi 
abandonada pela me aos dois anos de idade. Um dia, ficou sabendo que a me residia 
na mesma cidade. Entretanto, recusava-se a ir v-la dizendo:  ela quem tem de dar o 
primeiro passo.  ela quem tem de me procurar. Ora, essa jovem tornara-se me por sua 
vez. Tinha uma filha de seis anos que se recusava a falar-lhe, e ela irritava-se 
violentamente com esse mutismo. Quando o analista lhe perguntou se ela tinha tentado 
outros meios, que no a severidade, para induzir a criana a sair de seu silncio, s 
recebeu uma resposta, repetida por vrias vezes:  ela quem tem de dar o primeiro 
passo. 
Essas repeties ou coincidncias podem ser observadas em diversos registros. comum, 
numa famlia, que particularidades fsicas sejam notadas de forma repetitiva. Em tal 
linhagem de mulheres, elas so nervosas de uma certa maneira. Numa outra, no se 
suporta a desordem. Em outra, tm- se crises. Ou ento  sempre o mesmo lugar do 
corpo que  atingido de vrios modos. Ou, ainda, na mesma idade, algo de marcante 
ocorre para pessoas diversas. s vezes, um sintoma (acidente, doena, revs, 
depresso. . .) reproduz-se a intervalos fixos: O ms de maro nunca lhe  propcio; 
Acontece-lhe alguma coisa de cinco em cinco anos, e assim por diante. Esses 
comentrios podem ser enunciados sob a forma de queixa, mas o tom pode tambm ser 
de orgulho ou de reivindicao. So fruto de uma fixao. A pessoa compraz-se em 
descobrir que tem acessos de clera, tal qual meu av. Dir-se-: O garoto j tem suas 
birras. Puxou minha famlia. Que o trao seja portador de dramas ou de sofrimentos no 
impede que se apeguem a ele. Um casal repetia: Em nossa famlia no se tem sorte. A 
frmula, insistente, parecia barrar o caminho a toda evocao de melhor sorte e bem-
estar para o filho pequeno. No ter sorte, sem sorte como nossos pais, parecia definir 
um destino comum, um ancoradouro, um vnculo, um referencial identificatrio. Falar de 
sorte seria desqualificar-se. A repetio prende-se freqentemente a uma palavra: uma 
delas  n, sente-se um n na garganta, um n no intestino, um n na inteligncia. 
Alguma coisa range. Um mesmo trao poder exprimir-se com registros diferentes:
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um fala dele, outro pe-no em ao, um outro o somatiza ou sonha com ele. As 
expresses, que circulam na famlia, ecoando de um para outro, podem ser utilizadas por 
cada um de maneira contrastada; podem marcar uma identificao positiva ou uma 
defesa contra essa identificao: No quero fazer como meu pai ou como minha me; 
no quero parecer-me com eles nesse ponto. 
A forma do sintoma corresponde ao modo como  recebida. Queixar-se de tal maneira, 
de tal doena benigna, suscita uma ateno, um interesse, at mesmo uma excitao na 
entourage, dando assim a entender  criana que sua queixa  bem- vinda, que no s  
autorizada, mas convm muito ao papai, ou mame, ou vov, ouvi-la e lidar com ela. Essa 
possibilidade, de preferncia a uma outra, ser retida para obter ateno, cuidados, em 
suma, para sentir-se compreendido, reconhecido. Com o passar do tempo, as condies 
do que  aceitvel ou no pela entourage sero precisadas:  nessa seqncia da vida 
familiar que a queixa ganha maior receptividade e no em outra;  enunciada com tais 
palavras, tal entoao, tal mmica. 
Em suma, tudo se passa como se os pais oferecessem  criana, no comeo, um lote de 
traos organizados, constitutivos de suas posies edipianas (ou da maneira como so 
simbolizadas as diferenas de sexo e de gerao). Tudo se passa como se a criana 
dispusesse essencialmente desses elementos quando procura responder s questes de 
sua vida: o que sou eu? O que posso ser? O que  ser menino ou menina, pequeno e 
depois grande? Para cada criana, as questes de sua vida no se apresentam sob uma 
forma geral, mas sob uma forma singular: quem sou eu, tendo este pai e esta me, que 
so homem e mulher de tal e tal maneira?  a partir desse pai e dessa me que se 
introduzem os primeiros dados para elaborar a questo de o que  ser homem ou mulher, 
Por uma metfora, emprestada dos jogadores de cartas, chamamos de distribuio 
familiar  poro de traos fornecidos no comeo, assinalando, entretanto, que as cartas, 
num jogo, so distribudas ao acaso, enquanto que a criana recebe traos organizados, 
cujas relaes internas ela prpria ter de decifrar. As cartas que uma criana recebe 
no podem ser
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modificadas por ela, mas utilizadas e jogadas diferentemente. H jogos fceis e difceis 
de jogar. H distribuies perversas, distribuies loucas. 
Um jogador dispe de suas cartas expostas em sua mo, avalia o partido que poder tirar 
delas. A criana, desde antes de seu nascimento, est, ela mesma, includa na partida 
que obscuramente se joga entre seus pais. 1 colocada por eles num certo lugar, e  a 
partir desse lugar que seus genitores a convidam a viver, a inventar seu prprio jogo, tudo 
isso pedindo-lhe para continuar (ou tornar vivel) o que, atravs dela, no deixa de estar 
em jogo para eles prprios. 
Tal , pelo menos, a hiptese, o ponto de vista que vamos 
ilustrar atravs de algumas psicoterapias infantis. 
Julien F. 
Julien tem onze anos. Desde a mais tenra infncia, apresenta perturbaes do sono, 
aborrecimentos para o fazer adormecer, acentuados depois do ,nascimento de sua irm 
caula, de seis anos. 
A esse sintoma juntam-se idias angustiantes: se eu, amanh, estivesse em coma, se 
eu, amanh, estivesse cego. 
se eu fosse anormal. Soma-se tambm a isso,  noite, a compulso de verificar as 
fechaduras da casa, se ningum est escondido nos cantos, a fim de acalmar seu medo 
de que algum seja raptado. E mais: no pode suportar que seus pais no se deitem ao 
mesmo tempo que ele. Os pais nunca se inquietaram com esses diversos sintomas. 
Julien  muito inteligente. A famlia vive numa aldeia, ele 
freqenta a sexta srie como interno desde o ltimo reincio 
do ano letivo. 
Ele no receava o internato. Porm, pouco tempo depois de comeadas as aulas, 
enquanto a angstia e as compulses desapareciam, instalou-se um estado depressivo 
severo, o que levou os pais a solicitar a consulta. Julien no pra de chorar durante as 
aulas. Suplica por cartas e telefone que seus pais
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tenham piedade dele, que o levem de volta para casa, no 
consegue mais estudar. 
Eis o que se apresenta nas declaraes dos pais: 
O sr. F. descreve como permaneceu grudado a seus prprios pais, sobretudo  me. 
Quando criana, era medroso como seu filho  agora. No suportava ficar separado dos 
pais. At o falecimento recente de sua me, que vivia na mesma aldeia, ia v-la 
diariamente para lhe desejar boa-noite. 
A sra. F. explica que  insone. Ao falar, relembra o comeo de suas insnias: foi a partir 
do nascimento de Julien. Se ele no dorme, eu no durmo, pensava ela. Quem comeou, 
primeiro, a no dormir? No importa. O que importa  notar que uma permuta, um vnculo 
muito forte se estabeleceu nessa ocasio. E agora que Julien est no internato, cada um 
deles pensa  noite: est pensando em mim. 
Voltando por vrias vezes ao incio de suas insnias, a sra. F. d-se conta de que foi 
esse, e ainda  esse, o meio de protestar contra o apego de seu marido pela me, um 
apego que a fazia sofrer muito.  noite, ela estava presente para Julien e no para o 
marido, como em represlia s noites que ele passava com a me. 
Trs entrevistas com os pais e duas com Julien foram suficientes para que o casal 
modificasse sensivelmente suas posies e que, por conseguinte, a criana se visse 
aliviada tanto de sua depresso como de seus medos. Deixou de ser parasita da vida do 
casal, que teve um total recomeo: sadas  noite e viagens a dois, deixando as crianas 
em casa. O pai pde falar a Julien sobre a vida sexual, para contentamento mtuo. Os 
pais maravilham-se ao constatar a sbita alegria e maturidade de Julien. 
Para compreender do que se trata, neste caso, no basta interrogar-se acerca dos 
sintomas em causa: insnias, medos, compulses, fixao regressiva do menino em sua 
me. Convm indagar tambm de que questes esses sintomas so a expresso ou o 
suporte. 
Para situar-se, de que referenciais dispe Julien? Nessa 
famlia, ser um homem, um marido, um pai,  o qu? Ser
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mulher, esposa, me, o que ? Os dados de que Julien dispe so os seguintes: 
-um homem continua sendo o menininho de sua me e no pode deitar-se sem lhe ter 
dito boa-noite; para faz-lo, abandona sua mulher; 
-um marido discute com sua mulher, como fazem os pais com os filhos ou os filhos entre 
eles; o pai tinha explicado a Julien que marido e mulher discutem  noite e por isso 
gostam de estar tranqilos; as posies dos pais e dos filhos so, portanto, 
intercambiveis, e papai deixa mame para Julien  noite; 
-ser me  pensar, acima de tudo, em seu filho; preocupar-se com ele antes de se 
preocupar com o marido;  no dormir se o filho no dorme; os pais nunca saam juntos  
noite porque Julien ficava angustiado demais. 
Como, a partir de tais dados, Julien poderia encontrar uma posio de rapazinho em 
crescimento? Est situado na posio de jovem .dipo, tendo prioridade junto de sua mc 
e destinado a permanecer onde est, pois que tal  tambm a posio de seu pai. Julien 
retoma as questes que lhe apresentam as posies de seus pais e, para d-los a 
entender, emprega os mesmos termos que eles empregam na vida, o mesmo 
vocabulrio, poderamos dizer. 
Ele  medroso e angustiado  noite, tal como era seu pai.  semelhana deste, no pode 
separar-se tampouco de seus pais, sobretudo da me. Como o pai, ao cair a noite, Julien 
no pode passar sem sua me, que o acolhe de bom grado junto dela, visto que o marido 
fica, antes, junto da prpria me. Em suma, Julien confirma as posies de seus pais, 
adotando-as; ele as consolida. 
Este caso to banal, de dados simples, faz aparecer claramente: 1) que, em 
determinados pontos, as posies dos membros dessa famlia estabelecem um sistema; 
2) que Julien  convidado, por seus pais, a ocupar uma certa posio, sem que ele tenha 
verdadeiramente escolha entre diversas alternativas. 
1) Em determinados pontos, as posies dos membros da famlia estabelecem um 
sistema; em outras palavras, elas so
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interdependentes, O vnculo da me com Julien responde ao vnculo do pai com sua 
prpria me. o filho que se apega  me ou a me que se apega ao filho? O vnculo da 
me com Julien refora a necessidade que o pai tem de sua prpria me, ou o inverso? 
So perguntas sem resposta. Cada uma das atitudes ou posies chama as outras e 
responde s dos outros. 
As posies dos vrios membros so interdependentes. Quer isso dizer que no podem 
modificar-se? No, como se v neste breve relato: um mal-estar, uma dificuldade de viver 
de Julien suscita a questo; cada um deseja que alguma coisa mude, sem saber o qu. 
No incio das consultas, os pais pensam ser em Julien que alguma coisa deva mudar. A 
propsito de Julien, falam deles prprios e, de relatos em evocaes, de evocaes em 
associaes, aparece a rede de seus vnculos, aparece para eles. Do-se conta de que a 
mudana desejada concerne a todos, principalmente a eles, para facilitar a mudana de 
Julien. Acontece que podem modificar suas posies muito rapidamente, como se 
tivessem esperado uma ocasio, um motivo, um convite para isso. Eles mudam, portanto, 
e, como mudam, Julien deixa de estar imobilizado na posio que ocupava: no tarda em 
mudar como que em resposta  mudana de seus pais. Ao mesmo tempo, convida-os a ir 
adiante: por exemplo, sugerindo-lhes que vo os dois ao cinema  noite, que os deixem, a 
ele e  sua irm, arrumar-se sozinhos para uma refeio. 
2) Considerando as posies iniciais dos pais, Julien no tinha verdadeiramente outra 
escolha seno aquela que ocupava. 
Alguns pensaro que, apesar das posies parentais, ele poderia crescer como menino 
independente, a quem os problemas de seus pais s afetavam de longe. Aquilo a que 
chamamos a distribuio familiar faz compreender que as coisas no eram assim. ii 
atravs dos dados propostos por seus pas (quaisquer que sejam os traos que retenha, 
que escolha como traos significativos) que Julien procura os referenciais que lhe 
permitiro orientar-se. Sua situao no  diretamente o efeito das condutas parentais, 
mas a conseqncia de uma combinao de condutas caractersticas de uma 
configurao familiar. Seus pais, por fora do que so, convidam-no, como todos os pais, 
a ocupar um lugar no sistema deles. Conforme a famlia, o sistema  inteiramente rgido 
(nas famlias dos psicticos)
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ou relativamente flexvel, permitindo a seus membros certas opes em suas atitudes, 
com todos os pontos intermedirios entre esses dois extremos. 
Quanto mais uma famlia  doente, sofredora, frgil, mais fortemente ela convida seus 
membros, em particular os recm- chegados, as crianas, a ocuparem posies que a 
consolidem, a justifiquem ou preencham uma brecha. 
Vimos como a me de Julien se apossou dele para supe rar sua pena, seu rancor, para 
se vingar talvez das noites em que sua sogra a suplantava junto de seu marido. Vimos 
como as insnias da me e do beb se respondiam e se chamavam. O que a me 
comunicava a Julien era: pense em mim, fique comigo, pois que seu pai me abandona. 
Realmente, em sua tenra idade, Julien no tinha escolha. E, mais tarde, na idade em que 
o conhecemos, seria fcil para ele situar-se de modo diferente? O convite da me para as 
noites compartilhadas foi mantido desde seus primeiros dias. E o pai, que no estava 
descontente com sua vida, oferecia ao filho o exemplo de uma posio de adulto-ainda-
criana-que-no-pode-dispensar---noite-a-companhia-da-me. Para mudar, seria 
necessrio que Julien estivesse suficientemente organizado para modificar os 
referenciais que lhe foram propostos no comeo; mas, justamente, os materiais de que ele 
dispunha no lhe permitiam essa organizao na direo de uma relativa autonomia. 
Diante desse impasse, ele recorrer  constituio de um sintoma que diz: 
Estou neste lugar que vocs me indicaram, me atriburam, mas sinto-me mal aqui. 
A sra. G., me de trs crianas, procurou o terapeuta por Line, dez anos, que  nervosa, 
agitada, rebelde, sobretudo em relao  me, e impossvel intimidar. Estava indo mal 
na escola. 
Desde a primeira entrevista, depois de queixar-se de Line, a sra. G. passou a falar de si, 
da angstia que a dominava; tinha medo da solido e da morte, solido extrema. Dizia 
ela: 
Eu encaro a morte.  menos doloroso perder um filho do que
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um marido. No posso dizer isso  minha prima X, que perdeu uma filha. 
A sra. G. nunca se sentiu amada por sua me, que pouco se ocupava dela e quase no 
lhe falava. Sentia-se s, excet quando estava coma av, viva, cuja presena, palavras e 
cuidados a satisfaziam plenamente. 
Sobre Line, sua filha mais velha, relata seu desejo nutrido desde a infncia: uma me 
deve estar presente para seus filhos, falar-lhes, ocupar-se deles. Desse modo, ela faz o 
que imagina que sua filha espera dela. Acalma e consola a criana que ela foi. 
Por outro lado, ela repetir vrias vezes que a alternativa perder um marido ou perder um 
filho ocupa seu esprito. Ora diz:  menos doloroso perder um filho do que um marido, 
ora se interroga: Se tivesse de escolher entre perder um filho ou meu marido, o que 
faria? 
Esse conjunto de elementos est ligado  histria da sra. G. da seguinte maneira: em sua 
famlia materna, como em seu ambiente familiar em geral, ela pensa que s as mulheres 
vivas so boas mes, presentes para seus filhos a todo o instante e falando com eles. 
Sem que isso seja dito claramente, ela faz subentender que a presena de seu pai 
bastava para sua me e que, por esse fato, estava entregue a si mesma, deixada, 
perdida. Em outras palavras: Se meu pai morresse, minha me teria necessidade de 
mim e eu no me sentiria perdida. 
Por outro lado, a sra. G. d a entender que, inversamente, se sua filha morresse, ela teria 
a segurana de que o marido viveria. Esse desejo de morte exprime-se diretamente 
quando ela perde o controle, exasperada por Line, declarando: Eu ficarei tranqila 
quando voc morrer! , e numerosas frmulas atenuadas: . . . Finalmente, vou me livrar de 
voc. . . Vou coloc-la num internato!. . . Os nicos momentos felizes so quando Line no 
est aqui! Mas quando Line est longe dela imagina-a acidentada ou morta, tal como 
imaginava outrora sua me. isso o que a impede de internar a filha. 
O desejo de que Line morra tem um equivalente: o de qu ela seja anormal, que no tenha 
uma vida como as outras.
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Uma jovem parenta morrera tempos atrs de uma anomalia cerebral. Line foi 
imediatamente colocada no lugar dessa criana. 
Que Line seja anormal  uma obsesso para a sra. G. Ela se informa, consulta, observa; o 
mau aproveitamento escolar (muito banal) alimenta sua aflio:  anormal no entender 
os problemas. Concorda que um mesmo comportamento lhe pareceria banal num dos 
filhos mais novos e angustiante em Line, e espanta-se com isso. No pode desfazer-se da 
idia de que o psiquiatra a teria aconselhado a internar Line, o que  inexato. Em ltima 
instncia, por sua atitude atormentadora e desconfiada, suscita em sua filha 
comportamentos que no so como os outros. Tudo o que vem de Une me assusta, diz 
ela. Por que voc no  como as outras?, pergunta-lhe a me. 
Podemos resumir o que nos foi dado compreender pela 
sra. G.: 
 uma presena maternal no basta para evitar a angstia da solido; tambm so 
necessrias palavras, muitas palavras 
e cuidados; 
 ela desejava que seu pai estivesse morto/ausente para que a me vivesse s para ela; 
 vale mais perder um filho do que um marido; deve perder sua filha para que seu marido 
viva; perd-la na morte ou 
na anormalidade. 
Os lugares de mulher e de homem so assim caracterizados: 
 ser mulher  no poder estar s;  buscar uma presena permanente a seu lado; 
presena de algum que tenha necessidade dela, que lhe fale e a quem ela fale; 
 ser homem  estar muito s e limitar as trocas de palavras. 
. possvel agora discernir melhor a questo implcita no que a sra. G. nos forneceu, 
questo da criana que ela foi, assim como da me que  atualmente: Uma me  
para/est com seu marido ou  para/est com seu filho?
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O desejo da sra. G.  de ser para seu marido, retomando inconscientemente a posio de 
sua prpria me, desejo, portanto, de suprimir Line enquanto que existente para ela. 
Imputa a Line suas prprias comoes e posies: a filha sofre se no se ocupam dela. 
Diz mimar a filha ainda mais quando est insuportvel, para compensar, e elimina a 
idia de um internato. 
Mas Line  perigosa, na medida em que ela  suspeita de 
tambm desejar estar no lugar do pai,, aquele que existe para 
a me, supondo-se que ela assuma o desejo inconsciente da me 
e eventualmente o manifeste. 
A maneira excessiva e ansiosa como a sra. G. se ocupa de 
Line tem uma dupla funo: 
 satisfazer plenamente o desejo imputado  criana de esperar, ao que se supe, uma 
presena constante, muitas palavras e cuidados; 
 negar o desejo de que a criana morra, se perca, mostrando que faz o possvel e o 
impossvel para satisfaz-la; mas tambm conduzir freqentemente, na vida cotidiana, a 
momentos de exasperao em que se torna lcito pensar e dizer: eu gostaria de lhe fazer 
mal, gostaria de me livrar dela; eu seria capaz de lhe causar muito mal, se eu me 
escutasse, diz a sra. G. 
Em outras palavras, num primeiro nvel,  atribudo a Line um lugar de objeto contrafbico. 
Na medida em que ela se distanciasse dele, remeteria sua me de volta para uma 
invisvel sensao de estar incompleta, para sua angstia antiga, para o risco sempre 
presente no pensamento dela: que a pessoa necessria se ausente, parta, morra, no 
pense nela. 
 pergunta: Tornar-se mulher  permanecer junto de sua me como parte dela?, a 
resposta da sra. G.  sim. Essa pergunta e essa resposta  que so propostas a Line. 
Se ela no as adota,  qualificada de anormal. 
Uma vez que, na famlia, o homem, o pai, fala pouco, est freqentemente fora de casa, 
tendo interesses e atividades fora de seu trabalho, ele  algum, portanto, que no aceita 
o lugar de objeto contrafbico (assinale-se que a sra. G.  muito ape-
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gada ao marido e ele a ela). Na medida em que Line  capaz de subtrair-se ao sim da 
resposta contrafbica, ela adere ao no do pai e, ao mesmo tempo, v-se ocupando 
parcialmente a posio masculina dessa famlia. No surpreende que seus desenhos 
representem, ao mesmo tempo, personagens que diz serem meninos ou meninas, mas 
que em nada se distinguem umas das outras, inscrevendo-se a valncia sexual na 
topografia familiar. 
Insistimos ainda. Para a sra. G., como para a prima (em quem ela encontrou uma 
substituta de sua me, tal e qual deseja que fosse a sua, prxima de sua av), a questo 
com que Line se depara continua em aberto; ainda hoje, isso  assunto delas, 
incessantemente recomeado e comentado. As duas primas encontram-se o mais 
assiduamente possvel e a ocupao delas  ao mesmo tempo prazer e tormento  
consiste em falar a fundo de Line. Comentam tudo o que qualificam de anormal na 
menina e tentam em vo compreender por que ela no se mostra contente e gentil, 
quando sua me lhe dedica tanto tempo e cuidados. 
Num segundo nvel, o que contrabalana a alternativa perder seu marjdo ou sua filha  o 
desejo inconsciente da sra. G. de ser como sua me, que descurava da criana para estar 
com o marido. O lugar e o papel propostos a Line estaro, portanto, a servio da instncia 
recalcadora 
O desejo consciente  de que Line almeje a presena da me, seus cuidados e palavras 
e, encontrando-se plenamente satisfeita, lhe assegure que nada se manifestar do desejo 
inconsciente. V-se que a inquietao constantemente reafirmada a respeito da 
anormalidade de Line apresenta tambm duas vertentes: ela justifica que a me se ocupe 
da filha, se preocupe com ela, cuide dela, mas indica igualmente que, sen-
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do anormal, Line poderia ser afastada/perdida numa instituio. 
Tentemos agora indicar o uso que Line faz dos elementos 
significativos e do lugar que lhe so oferecidos. 
Por um lado, ela ocupa o lugar que lhe  proposto e, por outro, recusa-o. Os traos 
significativos, oferecidos pela me, so retomados por ela no sentido de que bastam para 
explicar todas as suas atitudes, tudo o que  dito delas. 
Line ocupa o lugar que lhe  apontado: 
Ela consegue que a me se ocupe dela incessantemente e lhe fale o tempo todo de seu 
mau aproveitamento escolar, suas negligncias na vida cotidiana, suas manias, suas 
diabruras contnuas contra os irmos mais novos, suas cenas... Se, aps uma exploso, 
manda Line fazer os deveres em seu quarto, a me fica to impaciente quanto ela para v-
la voltar  sala de estar. 
Line arranja-se para parecer, s vezes, anormal (mania, tiques, cenas);  qualificada de 
provavelmente pr-psictica em uma consulta. Procede de forma a fazer a questo 
permanecer em aberto, sustentando assim a fantasia de sua me. Em um perodo em que 
as tenses me-filha ficaram notavelmente atenuadas, o trabalho escolar deteriorou-se, 
sem o que Line seria reconhecida como normal. 
Line recusa o lugar que lhe  atribudo: 
Procede de modo que a me se ocupe dela, mas manda-a sistematicamente passear. 
Mostra-se de uma notvel eficcia na vida prtica, mas apenas quando se trata de uma 
iniciativa prpria, sem a presena nem as sugestes da me. 
No suporta que a me lhe fale, ainda que o faa com toda a afabilidade ou para lhe 
agradecer, para a elogiar ou responder a uma pergunta. Quase s fala  me por 
interjeies: Tanto melhor! Bem feito! Tanto pior! Pra! Eu sei! No se pode dizer nada 
pra voc, repete a sra. G. 
Line encena os dois nveis de fantasias e posies de sua 
me. Sua ambivalncia fundamental engloba ambos. Todas as 
atitudes da me sero recebidas e comentadas de maneira con-
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traditria (queixa-se de que ela no ajuda nos afazeres de casa, mas probe-a de fazer 
sua cama), sacudindo-a de um plo a outro  satisfazer plenamente a me suscita-lhe a 
angstia. 
Como dissemos, a organizao fbica est a servio do recalcamento. Ao que parece, 
quanto mais sua eficcia  imperfeita, mais ativamente ela se desenvolve na sra. G.: os 
desejos de morte/anormalidade em relao  filha afloram continuamente em suas 
declaraes, a ponto de ela mesma se espantar: Por que eu disse uma coisa to 
maldosa a Line?, Por que ela me exaspera a partir do instante em que chego em casa?, 
Por que entendi que ela foi mal na prova de redao, quando me disse que recebeu uma 
boa nota? 
s vezes, para estupefao da sra. G., quando, exasperada, atormenta Line, esta, em vez 
de reagir protestando como de hbito, permanece imvel e silenciosa diante da me, 
enquanto lgrimas deslizam por seu rosto. No seria o caso de se dizer que, exposta s 
fantasias maternas, apanhada na armadilha de dupla valncia delas, Line consente em 
suportar o ataque, em imolar-se? 
Line, portanto, ocupa o lugar que lhe  atribudo, mas, ao mesmo tempo, manifesta que 
esse lugar no  bom, no lhe permite viver contente, ser ativa, crescer. Ela mostra que, 
quando est situada em outro lugar, longe da me, pode tomar iniciativas sozinha,  ativa, 
capaz, pode-se contar com ela. O pai insistir por diversas vezes nos excelentes 
desempenhos de Line, quando ela tem uma situao sob seu controle, como adulta, diria 
ele; a filha mostra-se, ento, de uma calma e de uma eficcia que a todos espanta. 
Nossa descrio no seria completa se no mostrssemos 
o lugar que o sr. G., pai de Line, ocupa. 
Por um lado, ele  o aliado de Line em seu desejo de independncia: reconhece e aprova 
a maturidade de que a filha d mostra  seu desempenho nas atividades domsticas e 
outras  quando est longe da me e pode agir por iniciativa prpria. Diz-me isso, 
ocasionalmente, na presena da mulher e da filha. Para o sr. G.,  evidente que sua 
mulher fica excessivamente em cima de Line e deveria solt-la em sua vida cotidiana. 
Ele prprio considera-se um carter independente e
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compadece-se da exasperao de Line quando a me a assedia 
implacavelmente. 
Por outro lado, tendo ele prprio uma me no fbica, mas possessiva, absteve-se h 
muito tempo de lhe falar do que concerne a si mesmo. Mantm, em relao a ela, uma 
distncia protetora e bem-sucedida, ao que parece. Tudo se passa como se voltasse a 
representar um roteiro anlogo vis--vis com sua mulher. Fala-lhe pouco, menos do que 
ela desejaria, em todo o caso, e ela se queixa disso. Atividades culturais afastam-no com 
freqncia de casa  noite, e ela se queixa tambm disso. Em suma, deixa aos filhos a 
responsabilidade de atenuar a angstia fbica da me: a eles compete estar 
permanentemente presentes e falar-lhe, O sr. G. reconhece, portanto, a luta que  travada 
por Line e aprova-a, mas, pelo que sabemos, no se interpe entre me e filha para 
proteger esta ltima e, nisso, pode-se compreender que ele se protege a si mesmo, algo 
como: 
Os pedidos das mes, podemos ignor-los. 
Apesar disso, pode-se dizer que o sr. G. oferece a Line uma abertura e um apoio. 
Abertura para outras possibilidades que no a posio contrafbica, reconhecimento da 
legitimidade de querer ser independente. Graas ao pai, Line no est completamente 
encerrada na solicitao materna. 
Os sintomas de Line so constitudos por sua necessidade 
de ocupar o lugar que lhe  atribudo, ao mesmo tempo que 
se defende disso. 
A clnica nos indica que, em tal situao, Line talvez pudesse sentir-se livre se uma outra 
pessoa, em seu caso um dos irmos mais novos, se dispusesse a ocupar o lugar dela. E, 
com efeito, toda vez que Line obtinha resultados escolares melhores e, ao mesmo tempo, 
se mostrava calma e de fcil convvio, um ou dois irmos mais novos substituam-na. A 
me dizia ento: Ele est muito sujo, no d para chegar perto dele, no se lhe pode 
dizer nada e esfora-se pouco. Ao mesmo tempo, o cacula permanecia colado  me e 
confidenciava-lhe ter medo da morte. 
No queremos expor aqui tudo o que sucedeu na psicoterapia de Line. Revelamos 
somente que a sra. G. falou muito 
dela paralelamente s consultas com sua filha, que suas posi-
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es se tornaram mais flexveis, que Line pde viver melhor nessa mesma proporo. 
Mas toda vez que Line progredia mais rapidamente do que a me, esta ficava sujeita a 
acessos de angstia e Line fazia marcha  r, como que para esperar por ela e subtrair-
se aos efeitos dessa angstia. 
Imaginando-se que o tratamento foi empreendido muito apressadamente, sem que a sra. 
G. tivesse tido o tempo necessrio para expor suas prprias dificuldades, como pensar 
que poderia ocorrer algo de til para Line? E se no se levasse em conta a posio do 
pai seria impossvel compreender os recursos oferecidos a Line para se livrar do domnio 
materno.  a considerao da distribuio familiar, em seu todo, que mostra 
simultaneamente as coeres e os recursos oferecidos  criana. 
Neste captulo, procuramos ilustrar com exemplos to simples quanto possvel a idia da 
distribuio familiar. Esta apresentao esquemtica precisa ser completada, apurada e 
confirmada. No se trata de inventariar os acontecimentos, mas de ver como eles so 
utilizados e elaborados. A referncia ao passado destina-se a esclarecer o que a histria 
construiu e o que se manifesta na situao presente. A distribuio familiar  uma 
construo dos referenciais identificatrios em funo dos quais se organizam os vnculos 
de pertena comum, bem como as posies pessoais de cada um. As discordncias 
dessa construo analisam-se na situao atual,  medida que elas conseguem exprimir-
se. 
No  isento de interesse comparar essa concluso com as especulaes de Freud 
sobre a herana arcaica da infncia. Em 1938, em Moiss e o monotesmo, Freud 
escrevia: Quando estudamos as reaes aos traumatismos precoces, surpreende- nos 
com freqncia descobrir que eles no se limitam ao que o prprio indivduo realmente 
experimentou, mas divergem disso de uma forma que se coaduna muito melhor com o 
modelo de um evento filo gentico e s se pode explicar, em geral, por tal influncia, O 
comportamento das crianas neurticas em relao a seus pais, no complexo de dipo 
e na castrao, abunda em reaes que parecem injustificadas e s se tornam 
inteligveis de um ponto de vista filo gentico, por suas conexes
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com a experincia de geraes anteriores. * Sejam quais forem os problemas 
complexos da hereditariedade, parece que Freud invoca a noo de esquema 
filogentico quando no consegue explicar uma estrutura ou uma organizao das 
relaes entre a criana e seu ambiente. Em Totem e tabu, Freud imagina a filogenia 
como a pr-formao de um esquema. No temos competncia para tratar da 
hereditariedade, mas a hiptese de uma pr-formao parece deslocar a dificuldade sem 
a resolver. 
Ela no pode dispensar uma anlise efetiva das interaes familiares. O que uma criana 
recebe de seus ascendentes so os dados de um problema vital, de um questionamento 
sobre a maneira de ser homem ou mulher. O essencial do problema edipiano  sua forma, 
a de uma localizao precisa do eu e do outro por triangulao, por diferenciao de 
sexos e geraes. A aquisio de uma autonomia pessoal requer que as relaes entre 
indivduos se abram para referncias exteriores ao casal que eles formam juntos, e a partir 
do que tero a possibilidade de se tornarem independentes um do outro. A anlise das 
interdependncias familiares no deve ser separada da anlise dos mecanismos 
inconscientes e das estruturas neurticas. O exterior e o interior esclarecem-se 
mutuamente. 
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3. A SOLIDARIEDADE NA EVOLUO 
Dos casos de Julien e de Line resgatamos em comum o seguinte: os sintomas da criana, 
pelos quais os pais solicitam ajuda a um especialista, seriam uma resposta precisa por 
ela produzida  distribuio familiar singular de que faz parte. Atravs de sua resposta, a 
criana parece solicitar as posies de seus pais, procurar distanciar-se deles para 
construir-se, tentar mobiliz-los a fim de poder ela prpria evoluir.  o que chamamos de 
a tenso entre o lugar atribudo e o lugar ocupado. 
O caso de Loc vai agora permitir-nos acompanhar as evolues conjuntas de uma criana 
e de sua me. Veremos alternadamente a me arrastar a criana e depois ret-la, a 
criana arrastar a me e depois esper-la. O comentrio deste caso nos levar a formular 
questes gerais a respeito dos tratamentos de crianas. 
Loc P. 
Loc  um belo garoto de trs anos, com compleio de quatro. Aps algumas semanas 
de tratamento, seu aspecto fsico, seu extenso vocabulrio e seu ar inteligente faro com 
que dialoguemos com ele como se fosse um menino de quatro ou cinco anos. 
Por volta do dia 15 de todo ms, Loc apresenta, desde os 
dezoito meses de idade, temperatura alta e tosse. Contrai ora
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uma gripe ora uma rinofaringite ou qualquer outra afeco benigna. At ver o pediatra que 
o encaminhou a mim, s dormia com calmantes e assim mesmo s se sua me estivesse 
deitada. Dorme no quarto da me, O despertar de Loc  sempre penoso: grita durante, 
pelo menos, meia hora. O pai trabalha de noite e sai de casa por volta ds dezessete 
horas. 
Desde seu nascimento, sobressalta-se ao menor rudo. No bero, berrava quando uma 
pessoa estranha se acercava dele. Foi criado s com a me e no suporta entrar em uma 
casa desconhecida nem passar por uma rua que lhe seja estranha: 
comea logo a gritar, obrigando a me a mudar o caminho. 
Recusa todo contato fsico e verbal com o pai; recusa-se 
at a permanecer com ele em casa se a me se ausenta por um 
momento. 
A sra, P. no pode, portanto, sair dos trajetos habituais que levam ao parque pblico ou s 
lojas locais, nem receber em casa quem quer que seja. Ela entedia-se, habituada desde 
jovem a uma vida ativa. 
Muito manaco com a arrumao de seus brinquedos, Loc 
retorce-se de desespero se a me toca num brinquedo arrumado 
para a noite. 
Ele vive na obsesso de acidentes, ambulncias e morte, e tambm de mdicos, alm da 
tosse mensal, que comeou depois da aplicao de uma vacina. Aos dois anos, sesses 
de raios X por causa de problema de dentio fizeram de seu medo dos mdicos um 
verdadeiro terror. Esse terror estende-se aos cabeleireiros. 
Nunca brinca com outras crianas, mas fala muito, escuta 
e comenta tudo o que se diz perto dele. 
Chama-se a si mesmo de beb, nunca emprega o eu 
nem O tu. 
Nunca quer uma coisa, mas a mesma coisa em dobro: no 
uma mas duas laranjas, duas fatias de po com manteiga etc. 
Loc  filho nico. O pai desejava um filho, na mesma proporo em que a me rejeitava a 
idia, sem se atrever, porm, a dizer ao marido. Grvida, tinha medo de ficar sozinha  
noite, extenuava-se em trabalhos que exigiam fora, retar-
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dava as visitas ao mdico, tudo isso na esperana semiconsciente de um aborto. 
Loc nasceu trs semanas antes do prazo, em conseqncia do choque sentido pela me 
quando uma vizinha se lhe apresentou em casa, como uma louca, brandindo na mo um 
telegrama e pedindo  sra. P. que o abrisse. O telegrama anunciava a morte do marido da 
vizinha. O parto ocorreu na manh seguinte. 
Os primeiros desenvolvimentos foram normais, com exceo de um atraso na dentio. 
Mas Loc era um beb agitado, que chorava muito. Durante seu primeiro ano, como o pai 
dormia de dia e dispondo a famlia de apenas um quarto, ele no podia ficar tagarelando 
de manh. Depois do almoo, ele saa com a me. 
S nos reunimos com o sr. P. uma vez, no incio das entrevistas. Tinha uma relao de 
slida confiana no pediatra do filho, e era com ele que desejava falar. Por isso no 
podemos dispor de elementos a respeito de seu passado, de seus ascendentes. As 
declaraes que nos fez mostravam-no intensamente desejoso de que as coisas 
mudassem. Sofria por ver-se excludo do mundo fechado de sua mulher e de Loc, e 
percebia a aparncia patolgica das ligaes entre me e filho. Sofria tambm com o 
domnio da sogra em sua vida familiar. Sua incapacidade de mudar o que quer que fosse 
reconhecida por ele mesmo  era justificada pelo fato de trabalhar  noite. Ignoramos os 
problemas que, em seu lar, se ocultavam atrs desse libi. Em contrapartida, constatamos 
que, a partir do instante em que se abriu uma brecha no duo patolgico, o sr. P. pde 
imediatamente ocupar o lugar de marido e de pai por inteiro; a evoluo ulterior de sua 
mulher e de seu filho apoiou- se nele. 
Na primeira entrevista,  impossvel separar Loc de sua me: ele chora, berra, sufoca-se, 
gruda-se a ela; seu rosto est desfigurado pela angstia.  assim que ele fica, di a me, 
quando tenho de passar com ele por uma rua que no conhece ou quando precisa ficar 
sozinho com o pai em casa. 
A ansiedade tambm persiste intensamente quando, tendo-o feito entrar com a me em 
meu gabinete, peo-lhe que 
venha comigo at uma mesa, ficando a me sentada a dois me-
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tros dele. Convido ento a me a acercar-se da mesa com Loc no colo. Uma vez que 
dessa forma aceito que ele exista com ou colado  me, a angstia cede. Desenha de 
bom grado uma grande mquina que corta a grama e um automvel que anda sozinho. 
A me fala dele na primeira pessoa: Eu espirro, eu espirro. 
Na segunda entrevista, a me comparece sozinha.  pergunta que lhe fao sobre a 
eventual simultaneidade das doenas mensais de Loc e suas regras, ela se d conta de 
que, na realidade,  sempre assim. Mais ainda: at o parto, suas regras eram muito 
dolorosas, e agora que elas no mais incomodam Loc reproduz em detalhe seus antigos 
sintomas menstruais: 
incio das crises sempre  noite, necessidade de ficar agachada para aliviar as dores, a 
maneira de morder os lenis etc. 
Em seguida, ela compreende espontaneamente que Loc compartilha de todos os seus 
medos: medo de andar de carro (passara a ter medo depois de um acidente aos 
dezessete anos, com o pai na direo). O filho reage a todas as suas emoes, e, nos 
raros momentos em que no esto juntos, ela teme que o filho no tenha medo. Tal como 
a me, Loc gosta de gatos e de pessoas idosas. Ele  o meu duplo, conclui a sra. P. 
Na entrevista seguinte, descreve como se sentiu transformada ao sair de meu consultrio. 
Teve a impresso de que lhe faltava alguma coisa, de que j no tinha ventre. Caminhava 
como depois do nascimento de Loc, as pernas cambaleantes. Acompanhando suas 
regras, reencontrou as dores de antes do parto. Voltou a sentir prazer em suas relaes 
com o marido, o qual cessara aps o nascimento de Loc e  agora muito mais intenso do 
que antes. 
Na mesma noite da segunda entrevista, Loc aproximou-se do pai e dormiu 
tranqilamente. No sentiu o menor mal-estar durante as regras da me. Enfim, adquiriu o 
emprego do eu e do tu, 
Na terceira entrevista, Loc desenhou uma carroa que carregava e descarregava 
diversos materiais. A fantasia de uma viatura mais ou menos cheia, ou vazia, mais ou 
menos satisfeita de estar assim, e, depois, de duas viaturas, uma carregando ou puxando 
a outra, acompanhar todo o trabalho de parto verbalizado da me. 
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A deciso por um tratamento  tomada nesse dia, tratamento em que a me e o filho 
repartiro o tempo das sesses semanais. De fato, somente perto do final dessa curta 
psicoterapia  que Loc ficar sozinho comigo e depois aguardar sua me na sala de 
espera. At ento, recebo me e filho juntos. 
A partir desse momento, a sra. P, relacionar todos os seus intercmbios com o filho com 
os que teve, ou ainda tem, com sua prpria me. Tal como Loc, no podia separar-se da 
me, chamava por ela durante a noite. Mais tarde, no pudera suportar um ano de 
internato. Sua me, alis, queria-a s para si e retinha-a mediante chantagem 
permanente: a ameaa de ter uma crise. Recentemente, a av, numa dessas crises 
(desta vez real e no apenas ameaada), rolara por terra, arrasada e furiosa, porque sua 
filha se dizia pesarosa por ter de se separar do marido por ocasio das frias. A av est 
sujeita, s vezes, a hemorragias nasais que a pem louca (ela  hemoflica) e, tal como a 
sra. P., teme suas regras. 
Veremos o paralelismo das relaes me-av e me-filho enriquecer-se e depois 
transformar-se numa autonomia conquistada ao mesmo tempo pela me em relao  
av e pelo filho em relao  me. 
Alguns dias depois de a deciso por um tratamento ter sido tomada, a sra. P. tem uma 
violenta crise de angstia com a idia obcecante de suicdio por gs, interpretado como a 
conseqncia de um desdobramento. Ela declara que ver um psicanalista  ficar louca. 
Ser louca  ser duas pessoas. Ser duas  insustentvel. Tem de se matar para no matar 
o filho. A proteo que a idia de suicdio constitui contra o desejo de suprimir o filho s 
se apresentar  sra. P. muito mais tarde. Nesse dia, ela cita uma parente de trinta anos 
que vive colada  me e se diz morta. 
Durante alguns dias, Loc procura tranqilizar a me, mostrando-lhe que a dois tornam-se 
sempre um: cola-se ainda mais a ela e afasta-se do pai, a quem se pe agora a imitar 
com cachimbo, gravata etc. Simultaneamente, por carta, a av volta a agarrar-se  filha. 
At aqui, assistimos a um parto adiado,  ruptura ou, melhor,  distenso da simbiose 
me-filho. A me sentiu-se parida com sensaes e emoes variadas, O filho nasceu 
para
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o eu e o tu ao mesmo tempo que tomou e continua tomando conscincia de seu corpo 
atravs de perguntas e exploraes, de aquisies de vocabulrio e da noo verbalizada 
da diferena dos sexos. Me e filho suportam agora uma certa separao fsica: no se 
deitam ao mesmo tempo, ficam em cmodos diferentes da casa durante o dia, o menino 
ingressa na escola. Loc  desembaraado dos sintomas que falavam em nome de sua 
me, que testemunhavam o fato de que estava assimilado a ela, de que percebia por seu 
prprio retraimento a impossibilidade para ela de ser me. Agora, Loc d-se por 
satisfeito com uma laranja ou uma fatia de po; chama de Paul sua imagem no espelho e 
fala com ela. 
Em trs semanas, a transformao foi surpreendente: eles no so mais os mesmos, por 
assim dizer. A apresentao, as posturas, as mmicas, o tom de voz, os temas de 
conversa, a qualidade dos dilogos so outros. De uma megera desgrenhada e excitada, 
a sra. P. tornou-se uma jovem senhora cuidada e quase tranqila. 
Indagar-nos-emos agora por que a simbiose me-filho privilegiava o sintoma das regras 
dolorosas e o que isso significava. E tambm por que a sra. P. no pudera dar  luz 
mentalmente como tinha dado  luz (contra vontade) com seu corpo, por que tivera de 
viver depois tentando negar seu parto e no permitindo que seu filho fosse outro ser que 
no ela prpria. Vimos que ser duas era, para ela, o insuportvel, a loucura, a destruio. 
Seria necessrio que seu filho no nascesse, para que ela no tivesse de o matar. Mas 
impedi-lo de nascer dela, e para ele mesmo, era tambm mat-lo: nascimento para a 
morte sem sada. 
Antes de estudar esses problemas, digamos que a continuao do tratamento (que se 
desenrolar durante quatro meses para deter-se nas frias de vero) permitiu a Loc 
prosseguir sua rpida evoluo. Logo os pais comearam a poder 
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receber gente, levar o filho a reunies familiares em que ele passou a mostrar-se afetuoso 
e brincalho. O menino continua explorando seu corpo e aprende a vestir-se e despir-se 
sozinho; depois, passa a exibir, diante dos pais, o sexo e o traseiro, e a mostrar-se 
ciumento dos gestos afetuosos entre os pais na presena dele. Aprende a fazer uma 
quantidade de coisas teis na casa. Imita o pai em tudo. Chora durante dois meses ao ir 
para a escola, embora esteja contente nela e bem adaptado. Aps um perodo de 
conversao com sua imagem no espelho, ele fantasia um beb irmo de quem cuida e 
a quem mata alternadamente. 
Enfim, nas trs ltimas semanas, sonha que est s, sem pai nem me, e tambm que, 
com um homem jovem, vai procurar seus pais para assistir ao funeral de seus avs 
paternos. Dialogando com ele, compreendemos que, projetado no futuro (o homem 
jovem), convida seus pais a fazerem o luto pelos avs. o momento em que a sra. P. me 
diz: Loc nos absorve para tudo. . . e minha me sente-se envelhecer, sente-se 
abandonada como eu me sinto abandonada por Loc. Em casa, Loc brinca de fazer de 
conta que sua me est morta. 
Constata-se de forma evidente que os impulsos para a autonomia vivenciados por Loc 
so controlados pelo que a me pode suportar, com recuos passageiros quando um novo 
avano a deixa angustiada. 
Assim, por exemplo, ela tem um sonho de parto  ovos saem de sua vagina; ela ajuda. 
No dia seguinte, Loc mostra-se mudado: passa seu tempo com o pai e ignora a me. A 
sra. P., que parece ter consentido maior autonomia ao filho, , de fato, suplantada por ele. 
Nesse mesmo dia, reencontra sua nsia de suicdio por gs; sente-se s e perdida. Loc 
tem ento uma breve crise de angstia, recusando-se a acompanhar o pai na escada da 
casa e berrando que est perdido. Mas, na noite seguinte, o movimento de progresso  
retomado por uma parte e pela outra; Loc sonha que est s na montanha e na escola. A 
me sonha que o filho partiu em viagem sem ela, pergunta-se se ele ir chorar e tudo se 
passa bem. 
Nos dias seguintes, Loc brinca de fazer de conta que mame est morta e a sra. P. tem 
um ltimo sonho com sua
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me: ela quer mat-la com uma faca. Em sua provncia, a av parece adaptar-se  
evoluo da filha, reatando relaes com sua irm mais velha, com quem esteve brigada 
por muito tempo. Amplia os intervalos entre seus telefonemas para a casa dos P. 
O paralelismo da evoluo das trs geraes est suficientemente descrito ou sugerido, 
pelo que voltamos ao problema da sra. P. 
As regras, as dores que as acompanham, o receio de ambas, o desejo e a preocupao 
de ter ou no ter menstruao, so utilizados por ela como sintoma. Esse sintoma regras 
apresenta-se como herana materna: tambm a av, em seu tempo, sofria do mesmo 
problema e queixava-se disso. Opera- se uma condensao entre regras e hemorragias 
nasais e crises. A av hemoflica agitava histericamente a ameaa de crises 
(hemorragias nasais = regras) como instrumento de poder sobre seu ambiente, dizendo, 
de certo modo: Se sangro morro, e se voc parte morro, ou ento: Se voc parte, eu 
sangro e morro. 
Reencontramos a mesma equao na sra. P.: separao do filho (parto) = morte 
(suicdio). Ela nos diz: Loc  meu sangue. Se ele partir, minhas regras acabam, enfim. 
Sabemos que, quando adolescente e depois mulher, suas menstruaes eram muito 
dolorosas e que, aps o parto, deixaram de incomodar. A partir dos dezoito meses de 
idade, durante os perodos menstruais da me, Loc  encarregado das dores dela; esse 
sintoma foi delegado ao filho. Diz a sra. 
ele  meu duplo. Compreenda-se: ele no  ele, ainda  ela. Conforme relatei acima, a 
conscientizao dessa situao permite ou constitui, para a me, uma espcie de parto 
protelado: Loc nasce, ou comea a nascer; eles so dois. A me reinicia logo seu 
sintoma de regras dolorosas e angustiantes, do qual Loc , ao mesmo tempo, 
desobrigado. 
A sra. P. temia o aparecimento de suas regras (desdobramento e morte), sentia prazer 
em imaginar-se na menopausa. Mas, evidentemente, esse desejo tem um duplo 
significado: ser criana ou estar na menopausa, fora da vida genital, fora de
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perigo; e tambm estar grvida, na fronteira perigosa, prestes a ser dois; estar grvida 
com sua anulao; no dar  luz. O desejo de estar grvida est sempre presente no 
desejo de menopausa, que  apenas formulado. E disso que se trata quando o sra. P. 
relata este sonho: Quero comprar uma capelina branca de donzela e s encontro chapus 
de luto, e comenta: 
 o luto de meus laos infantis com minha me.., ou o luto de minhas regras, no o 
compreendo, mas sei. Em termos claros: Teria de fazer o luto de meus laos infantis 
com minha me para poder estar grvida. 
A sra. P. vive na base de um ajuste, de um compromisso. Tudo se passa como se ela no 
pudesse ser ao mesmo tempo esposa e me, como se ser me fosse manifestar o 
incesto consumado. Se ela  me,  porque tomou o lugar de sua me. Portanto, deve 
anular, negar a existncia do filho. Precisamente, no material do tratamento, matar a 
criana = orgasmo possvel, Assim, durante sua gravidez, investida pelo desejo de um 
aborto, a sra. P. conhece um perodo de sensualidade vida e satisfeita. Assim, sonha 
que seu filho se afoga e um orgasmo a acorda. Pensa no suicdio por gs, que sabemos 
mascarar o desejo de infanticdio, e ela sente subir-lhe uma excitao violenta. Um outro 
sonho mostra-a mocinha, pensando em casamento, enquanto que uma criana se afoga 
etc. 
Se ela no mata a criana existente, deve eliminar-se, ou sej a, tornar-se una com sua 
prpria me, para que Loc seja a criana de sua me e no dela. Quando a famlia est 
de frias na casa dos avs maternos, Loc realiza essa supresso de sua me, assim 
como de seu pai, tratando-os por seus prenomes e chamando de papai e mame aos 
avs. 
As declaraes da sra. P. fazem pensar que sua me debatia-se,  sua maneira, com o 
mesmo problema. Ela lutava para conservar a filha com ela ou nela, para serem apenas 
uma em duas, para no morrer com a separao. No perodo inicial do tratamento,  
distncia, a av ainda pautava por telefone a vida cotidiana na casa da filha, ignorando o 
genro e seus gostos, no suportando a idia de que o casal tivesse momentos de 
liberdade, privava-se de se ocupar de seu neto durante as frias, a fim de que a filha 
ficasse retida junto dela etc.
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Comentrio 
Como nos casos de Julien e de Line, no captulo precedente, os sintomas de uma criana 
podem ser compreendidos quando se considera a situao problemtica na qual ela est 
colocada, o lugar que lhe  atribudo. A Loc, sua me pede que seja uma criana-ainda-
no-nascida, uma criana no separada dela, que, portanto, a poupa de ser me. Ela 
convida o filho a viver como se estivesse ainda nela, como se eles fossem um e no dois. 
A esse convite/determinao, Loc responde compondo sintomas que manifestam que, 
com efeito, ele e a me so apenas um. Mas o lugar atribudo a Loc no lhe permite 
construir-se, distinguir o meu do teu, estabelecer progressivamente relaes de 
reciprocidade com seus pais e seu ambiente. Por conseguinte, Loc tambm manifesta 
que sofre nesse lugar. Cada um dos sintomas que assinalamos apresenta uma dupla 
vertente: participar do jogo da me e entravar suas duas vidas. No momento da primeira 
consulta, as vidas de ambos, repletas de tenso e de angstia, desenrolaram-se num 
espao dos mais restritos  geograficamente, socialmente e em suas atividades. Loc 
parecia dizer  me: Sou como voc quer que eu seja, mas voc sabe que no podemos 
viver assim, nem voc nem eu. 
Fizemos uma constatao anloga a propsito de Une, mas o tratamento de Loc e de 
sua me permite-nos perceber 
como uma situao desse tipo pode transformar-se, abrir-se. 
Foi na sra. P. que a mudana comeou. Na segunda entrevista, falando sobre si mesma e 
Loc, ela deu-se conta de at que ponto o filho adotava os gostos, as emoes e os males 
maternos. Ele  meu duplo, dizia ela. O esclarecimento que lhe proporcionou essa 
entrevista marcou o incio de sua evoluo, bem como o da evoluo de seu filho. No 
encontro seguinte, ela diria como se sentiu transformada, como se lhe faltasse alguma 
coisa, como se no tivesse mais ventre, ao mesmo tempo que reencontrava as 
sensaes experimentadas aps o parto. Em outras palavras, ela consentiu que seu filho 
nascesse, que deixasse de estar dentro dela. E a partir do dia em que se sentiu 
transformada tudo se passou como se o lugar que ela indu-
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zia Loc a ocupar estivesse igualmente transformado. Sem que tivesse sido feito qualquer 
trabalho com Loc (exceto a primeira entrevista, em que estavam presentes os dois), na 
mesma noite em que a sra. P. se sentiu mudada, o filho mudou: 
os sintomas mais marcantes cederam; ele procurou o pai pela primeira vez; conseguiu 
empregar o eu e o tu. Como ele desenvolveu imediatamente sua vida no espao novo, 
as possibilidades novas que lhe foram oferecidas, deixou de ser necessrio que 
assumisse os males de sua me, podendo desligar-se dela para se aproximar do pai, o 
eu e o tu tornaram-se distintos. 
Mas a sra. P. no pde sustentar a situao que assim se instaurou entre ela e seu filho. 
Ela sentiu-se desdobrada e, por conseqncia, tomada pela idia de suicdio. Ser dois 
era enlouquecer. O espao novo que se abrira a Loc tornou-se um lugar de angstia para 
sua me. Portanto, iria reaproximar-se dela, renunciando, por um momento, a parte de 
suas conquistas. 
Foi encetada uma evoluo de ambas as partes, que prsseguiria com avanos e recuos 
de uma parte e de outra. Sublinharemos trs pontos: 
1) Parece ter sido a mudana ocorrida na me que possibilitou a primeira modifjcao 
verificada no filho. A mudana de um aparecia como condio para a mudana do outro. 
 difcil imaginar como Loc poderia evoluir sozinho, impondo assim  me a angstia 
funesta de ser dois. E se ele fosse o primeiro a iniciar uma evoluo decisiva, dois 
riscos estariam presentes: o de que a me naufragasse de um modo ou de outro em sua 
angstia e o de que ela se opusesse  evoluo do filho (interrompendo o tratamento, 
desacreditando o terapeuta etc.) para se proteger. Pode-se imaginar tambm que Loc 
seria levado por conta prpria a interromper o tratamento (recusando-se a vir  consulta, 
ficando doente etc.) ou sua evoluo pessoal a fim de evitar ou atenuar a carga de 
ansiedade que impunha  me. 
Pode-se pensar que a determinao do tratamento, que comportava uma mesma consulta 
com me e filho, isto , reconhecia a impossibilidade momentnea de um distanciamento 
entre eles, favoreceu a evoluo dos dois protagonistas. Isto porque ela no antecedia 
nem forava a evoluo, portanto
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tornava intil aos pacientes ter de se proteger de intenes exteriores a eles. 
2) Essa perspectiva parece-me confirmada pelo fato de que, ao longo de suas evolues 
paralelas, Loc e sua me se conservaram muito perto um do outro. Era impressionante 
observar a preciso do ritmo das mudanas que sobrevinham: 
cada um media seu passo pelo do outro; se um ia depressa demais e o outro no o 
acompanhava  a ansiedade surgia ento , era preciso retardar o andamento, esperar 
que o outro pudesse voltar a acompanh-lo. Na maioria das vezes, era Loc quem 
puxava a me, como lhe dizia ela; suas capacidades de evoluo foram extraordinrias; 
ele no se detinha. O pai o apoiava, feliz com os progressos do filho. Em contrapartida, o 
sr. P. no percebia toda a importncia do que estava em jogo para sua mulher, e no 
esteve com ela nos momentos de grande ansiedade; por isso, a sra. P. sentia maior 
necessidade ainda de que Loc se aproximasse dela. 
3) Consideremos agora as declaraes da sra. 1. a respeito de sua me e de seus 
vnculos com ela. Desde o comeo, sem ser solicitada, ela procurou elucidar sua relao 
com o filho pelo que entrevia, e depois fixou-se em seu relacionamento com a prpria 
me. Ela descobria, por etapas, sua homologia, espantava-se com isso, transferia de um 
para outro o que experimentava e compreendia. O avano de Loc no sentido de uma 
autonomia maior serviu de estmulo e de apoio para que ela se desprendesse da me. 
Mas o sofrimento de ser dois, que a agitava interiormente, permitiu-lhe igualmente 
compreender o que foi sempre o domnio da me sobre ela. Como todos os pais, a sra. P. 
ocupava uma posio axial: ao mesmo tempo filha de sua me e me de seu filho. V-se 
aqui que uma mudana que sobrevinha na dinmica de um dos termos acarretava uma 
mudana no outro. Para ser capaz de atribuir a seu filho uma posio de criana-nascida, 
a sra. P. devia ocupar tal posio em relao  prpria me. 
A histria de Loc, como as de Julien e Line, convida-nos a uma constatao: a margem 
de independncia  estreita entre as posies dos filhos e as dos pais, mesmo quando os 
primeiros tm todas as capacidades requeridas para evoluir e aspiram a faz-lo: Loc e 
Julien estavam dolorosamente imobiliza- 
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dos em seu desenvolvimento, mas, assim que uma mudana favorvel se produzia em 
seus pais, imediatamente utilizavam, de modo rpido e impetuoso, a nova distribuio 
que lhes era oferecida, como se esperassem apenas por isso para progredirem. Pelo 
contrrio, a me de Line atenuava sua posio fbica sem deixar de a manter; Line a 
seguia, abandonando e reencontrando alguns de seus sintomas conforme a sra. G. 
abrandasse ou apertasse seu domnio sobre ela. 
A histria de Line permitiu-nos ver como a margem de independncia, de que acabamos 
de falar, repousava no fato de que a criana  fruto de ambos os pais, est no cruzamento 
de duas linhagens: o lugar atribudo por uma das partes pode ser compensando pelas 
possibilidades oferecidas pela outra. Nas patologias mais severas, as posies dos pais 
conjugam-se freqentemente de tal modo a no deixarem margem de manobra para a 
criana; o imobilismo do filho parece ento permitir a sobrevivncia dos pais. 
Se a distribuio familiar  to determinante quanto nos parece ter sido constatado, 
cumpre-nos questionar o conjunto de nossa prtica: so possveis os tratamentos de 
crianas? A psicanlise infantil seria uma tapeao? 
Os tratamentos de crianas so possveis, mas os pontos de vista propostos at aqui 
reduzem o campo e as condies de seu estabelecimento. Evidentemente, modalidades 
muito diversas so praticadas para efetuar tratamentos de crianas. Mas se nos 
ativermos a examinar-lhes os efeitos, ser foroso constatar que eles so com freqncia 
decepcionantes: tratamentos interminveis, rupturas, abandonos, conseqncias 
incmodas no seio do grupo familiar. Em todas as ocorrncias semelhantes que pudemos 
estudar, fomos levados, sem exceo, a pensar que a deciso de iniciar o tratamento fora 
incorreta. Uma determinao correta, em nossa opinio, respeita as seguintes condies: 
 no prescrever, mas acompanhar os consulentes em seu caminho para chegar a uma 
deciso; 
 nas entrevistas preliminares, deixar todo o tempo necessrio para que a solicitao 
inicial se desdobre em seus eventuais meandros; 
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ouvir ambos os pais e obter o acordo explcito dos dois, no assumindo qualquer 
compromisso de tratamento sem que haja esse acordo; 
 no transferir para a criana a solicitao formulada por seus pais, mas reservar um 
lugar para a eventual solicitao pessoal dela; 
deixar  criana o tempo de se decidir e lhe dar a possibilidade de recusar a ajuda que 
lhe  proposta. 
Muitos tratamentos prescritos no so aceitos pelos consulentes. Em contrapartida, 
aqueles que so iniciados renem 
as melhores condies de ser viveis e produtivos. 
1) Os pais, a famlia, estaro em condies, segundo suas possibilidades, de mobilizar 
suas posies para o bem-estar da criana. O reconhecimento dos vnculos que tecem a 
comunidade familiar, assim como dos limites e sofrimentos de cada um, garante aos 
consulentes que os caminhos abertos no so nossos mas deles. Se eles avanam, 
podero recuar, retardar-se. Ouviremos positivamente suas crticas ou aparentes desvios. 
Eles jamais sero constrangidos ou acuados. 
2) A criana no  arbitrariamente isolada dos seus, separada das bases de sua 
construo, dos dados de seus problemas. O aspecto positivo de seus sintomas  
reconhecido: a busca, que eles manifestam, de um compromisso construtivo (um 
compromisso entre o lugar atribudo e o lugar ocupado). Trata-se de a criana construir e 
no apenas de sofrer menos. Desejar a supresso de um sintoma, por mais severo que 
seja, desconhecendo-lhe a vertente de compromisso construtivo  sempre um erro prenhe 
de conseqncias. 
3) O material produzido pela criana ser analisvel. Enquanto existe presso ou 
prescrio, a criana tende a reagir  violncia que lhe  feita, Sua reao, suas fantasias 
no sero compreendidas, pelo que so, pelo terapeuta que no tiver conscincia de que 
a violncia  obra sua. Um mal-entendido parasitar todo o trabalho. 
Na ptica que propomos, so entabulados menos tratamentos. Tambm menos entre 
estes sero desenvolvidos de um modo linear. Por um lado, porque os laos familiares 
frearo 
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o processo. No os levar em conta implica conseqncias traioeiras e coloca a criana 
em situaes angustiantes e destrutivas, isso se ela for induzida a prosseguir num 
tratamento, enquanto seu pai ou sua me so ameaados pelos progressos do filho. Com 
freqncia, aps um perodo de progresso da criana, todo o grupo, incluindo ela, deseja 
uma suspenso, a fim de dominar as mudanas que sobrevieram, antes de poder 
enfrentar e viver outras. 
Por outro lado, levar em conta os vnculos familiares, ouvir ambos os pais, dar margem 
tanto para a solicitao quanto para a recusa da criana, permite freqentemente aos 
diversos protagonistas ocupar um lugar cujo acesso lhes estava at ento mais ou menos 
barrado. Aps uma ou algumas entrevistas, vem-se surgir atitudes novas que tornam 
caduca a solicitao inicial. Assim, pais que em suas casas quase no tm voz ativa 
passam a ser capazes de se fazer ouvir e de acompanhar a evoluo do filho, 
simplesmente porque os escutamos e levamos em conta suas palavras. 
Uma outra questo deve ser abordada, que acudir ao esprito dos leitores: ser oportuno 
conceber o processo de modos diferentes, segundo se trate de sintomas reacionais ou de 
neurose constituda na criana? No nos parece. 
Tentamos mostrar que a ateno dada s palavras, aos sofrimentos, aos limites dos pais 
ou de outros membros da famlia gera a situao mais favorvel a uma mobilizao das 
posies de alguns. Na medida em que se efetua uma certa mobilizao, constata-se 
ento que muitos sintomas reacionais cedem ou atenuam-se; assim ocorreu com Julien e 
Loc. Nesses casos, a solicitao da criana e dos pais, na maioria das vezes, no se 
orienta para uma psicoterapia a longo prazo mas, antes, para entrevistas que lhes 
permitam explorar e depois consolidar a nova situao, antes de tomar um novo impulso. 
Nos casos de neurose estabelecida na criana, um trabalho inicial idntico deve ser feito 
a fim de assegurar as condies de um tratamento vivel. Se a criana neurtica tem uma 
solicitao pessoal, vimos que seu avano no tratamento colidir com os limites do que  
suportvel por seus pais. Esses limites serviro de freio, de todo modo e sem que 
saibamos, se no lhes dermos ateno nenhuma. Como indicamos no ca-
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ptulo 1,  desejvel que os pais pressintam (pelo menos) as ressonncias, os ecos neles 
prprios das questes e sofrimentos de seus filhos. Na falta disso, as modificaes que 
sobre- vierem na criana os levaro a recus-las ou a proteger-se contra elas. Todos 
tivemos de lidar com as mil maneiras de entravar ou de sabotar um tratamento que, no 
entanto, era desejado, no exato momento em que comeava a dar seus frutos. 
Espantar-se com o fato de que os pais ou o grupo familiar tentam frear a cura da criana 
decorre de um erro de enquadramento: as pessoas de uma mesma comunidade familiar 
tm em comum as chaves de suas construes respectivas. Se uma delas muda seus 
referenciais, impe s outras que mudem tambm os seus. Mudar pode ser difcil, 
doloroso. Assumir a responsabilidade de curar uma criana impe que se leve em conta o 
conjunto da comunidade de que ela  membro. 
No podemos considerar aqui as diferentes maneiras de levar em conta o que se diz e o 
que se passa numa famlia, em torno do tratamento de uma criana. Digamos apenas que, 
com freqncia, uma entrevista com os pais, de tempos em tempos, permite trabalhar a 
zona de sofrimento deles (depresso ou clera, sentimento de vazio, de abandono, 
somatizaes etc.), facilitar ou acompanhar as reformulaes que se lhes oferecem. C 
muito raro que as crianas no estejam de acordo em que tais entrevistas tenham lugar. 
Elas as desejam freqentemente e as solicitam s vezes.  entre os adolescentes que se 
encontram as recusas que temos de respeitar. 
O enquadramento mais amplo que propomos  a comunidade familiar e no a criana 
isolada   o do campo que se nos oferece nas consultas de crianas. Somos tentados a 
dizer que no temos escolha, salvo se colocarmos limites, os nossos, ao que poder se 
fazer.
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4. DE UMA GERAO A OUTRA 
Um fIlho para minha irm gmea
Quem no ouviu falar da extraordinria aventura de Christine Sevault e Magali Crozet, 
as gmeas homozigotas  isto , gmeas verdadeiras  uma das quais foi portadora 
de um filho para a outra? 
Magali era estril; Christine, j me de dois filhos, recebeu por inseminao artificial o 
esperma de seu cunhado e deu  luz um filho que ela abandonou para sua irm. 
Assim comea esse livro-documento. Propomo-nos coment-lo, concentrando-nos no na 
aventura singular de Magali e Christine, as gmeas, mas na histria da famlia delas, pela 
linhagem feminina. As informaes que nos foram dadas dizem respeito a trs geraes. 
Queremos mostrar que as mulheres dessa famlia tm um problema comum, que circula 
entre elas e que cada gerao repe em cena  sua maneira. O fato de Magali e de 
Christine serem gmeas levou-as a, e permitiu-lhes, uma encenao prpria de seus 
laos peculiares.
No estamos lidando aqui com um documento clnico propriamente dito, embora as 
circunstncias que presidiram  sua
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edio tenham a ver com uma solicitao. Portanto,  til defini-las com preciso. 
Aps dez anos, no decorrer dos quais Magali se deprimia cada vez mais,  medida que 
sua esterilidade se confirmava, aps dez anos, no decorrer dos quais Christine sentia 
aproximar-se o momento em que deveria conceber um filho para sua irm gmea, as 
duas decidem, com a concordncia do marido de Magali, que Christine, divorciada e me 
de dois filhos, gerar um filho para d-lo  irm. Aps seis meses de inseminao 
artificial com o esperma do cunhado, Christine fica finalmente grvida. A ansiedade e, s 
vezes, o pnico que se apossam das duas irms, nesse incio de gravidez, so 
insuportveis; elas no tinham imaginado que a situao em que se meteram seria to 
difcil de sustentar. 
Quando participaram  me a deciso tomada, a reao foi violenta: 
 Vocs enlouqueceram ou o qu?... Se voc quer mandar sua irm para o cemitrio, v 
em frente! Mas no 
digam que no as preveni! 
A reao do mdico foi igualmente mordaz: 
 Mas o que  que esto dizendo?! Esse beb  para Magali? Mas vocs esto 
delirando, minhas queridas!... Voc no agentar o golpe, Christine. E a loucura 
completa, essa histria. . . Terei de vigiar vocs estreitamente, se no quiser ver uma ou 
at mesmo as duas cometerem suicdio em pouco tempo. 
Os advogados a quem elas submeteram o caso, a fim de serem desembaraadas as 
conseqncias jurdicas, comearam todos a trat-las de piradas. 
As duas jovens passam seus dias juntas, pensando na criana ou, no caso de Christine, 
esforando-se por no pensar nela. Ambas se indagam se agentaro o golpe, cada uma 
delas repartida entre seu amor  criana e seu amor  irm. Por momentos, era como se 
eu afundasse na loucura. . ., diz Christine. 
E ento que decidem remeter uma carta sucinta a dois semanrios, a fim de fazerem 
saber ao mximo de pessoas o que lhes est sucedendo. Como para tentar obter 
reconhecimento e legitimidade para sua histria louca, escreve Marie
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Pierre Levailois. A imprensa, a mdia, reage com tremendo alvoroo. O pedido de socorro 
foi ouvido. O mundo fechado, insustentvel, abriu-se. Assim, Christine compreende e quer 
notificar ao mundo que  desumano, anormal, gerar um filho para d-lo em seguida a 
uma outra mulher. Por ter obtido testemunhas, est agora certa de que ter fora 
bastante para dar a criana. Entre o pblico, alguns aprovam, outros criticam, mas o 
reconhecimento e legitimidade so, com efeito, obtidos. A algazarra publicitria pode 
desagradar, tendo sido denunciada Mais importante  indagar se, sem a interveno 
desses tereiros, com seus milhares de vozes, as gmeas teriam podido prosseguir no 
caminho em que se embrenharam. 
Resumamos agora a histria familiar. 
A 3 de maro de 1931, Madeleine Bridier vai buscar no orfanato de Bourges o beb que 
lhe ser confiado.  casada, tem uma filha, Odette, de quatro anos, para a qual no 
consegue dar um irmo ou uma irm. Ela pr pria foi abandonada e criada por uma 
famlia adotiva. Por reconhecimento  famlia que a recolheu, deseja ocupar-se de uma 
criana da Assistncia Social. 
Colocam-lhe nos braos um beb enfiado num cueiro, uma menina de onze dias. O que 
descobre, ao chegar em casa e desembrulhar a criana, deixa-a sem voz: o beb  
extremamente magro e seu corpo est coberto de chagas infeccionadas. Madeleme 
compreende que Jacqueline-Madeleine Courtelie ( o nome indicado pelo orfanato) 
corre o risco de morrer de um momento para outro. Por um instante, pensa en ir 
devolver a criana; mas d-se conta de que, no estado em que ela se encontra, itunca 
haver quem a queira. 
Decide ento conserv-la e fazer tudo o que puder para 
salv-la. Comea chamando um mdico. Madeleine no  rica
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e, em 1931, nem se faz idia do que seja Seguro Social. Aos poucos, fac queime vai se 
curando. Madeleine ama-a como  sua prpria filha. Quanto a Andr Bridier, seu 
marido, passa a ter verdadeira adorao por essa garotinha morena. 
Os anos passam at que a guerra eclode, quando Jac queune tem nove anos. Seu pai 
adotivo  mobilizado. Regressar gravemente enfermo. Sabendo-se perdido, faz sua 
mulher jurar que, acontea o que acontecer, nunca se separar da menina. Esta, com 
efeito, ainda no est oficialmente adotada pela famlia que a acolheu, apesar das 
reiteradas propostas da Assistncia Social. Madeleine hesita em tornar-se a me legal 
de fac queime. Prefere conservar a possibilidade de se separar da criana em caso de 
problema... Nessa poca, fac queIme toma conhecimento da verdade sobre sua vinda 
ao mundo.  um choque para ela. Fica ressentida com Madeleine por lhe ter revelado a 
verdade e comea a fazer milhares de perguntas sobre sua verdadeira identidade. 
Quem  sua me? Por que foi abandonada e em condies to misteriosas? Tem 
irmos e irms?. . . Esse enigma a obcecar a vida inteira. 
Andr Bridier morre em 1940. fac queime no se conforma com a morte daquele a 
quem chamava papai. At ento, ela sentira-se protegida por ele... Aquela a quem tinha, 
por tanto tempo, considerado sua me no o era, e a nica pessoa com a qual se sentia 
segura acabava de desaparecer. Se sua me de criao decidisse abandon-la, para 
onde iria? Por seu lado, Madeleine avalia o quanto lhe ser difcil alimentar sozinha as 
duas garotas. Pensa em entregar a menina  Assistncia Social, mas a promessa feita 
a Andr impede-a de o fazer. No lhe resta mais do que trabalhar em dobro... 
Alguns anos mais tarde, Madeleine volta a se casar. Jacqueime no se dispe a gostar 
desse novo pai como tinha amado o primeiro. Aos quinze anos encontra uma colocao, 
 muito apreciada. Em seu segundo emprego, ganha a afeio da patroa que, embora j 
tenha uma filha da mesma idade, prope a Jacqueline adot-la oficialmente; mas essa 
famlia sai da cidade, e Jacqueline, que no quer mais morar com Madeleine, sua me de 
criao, pensa que a conquista de sua liberdade depende do casamento. No tarda em 
ser engravidada por um
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jovem miljtar, que volta a partir em servio, logo depois de casarem. 
Comea ento para Jacqueline uma vida de misria num casebre, de trabalho extenuante 
e de doena (cardiopatia). Uma benfeitora  a mulher do prefeito de Cher , informada 
de seu caso, visita-a semanalmente, leva-lhe roupas e peas de enxoval para recm-
nascido, incute-lhe coragem. Passam-se as semanas e fac queime apega-se  sua 
benfeitora, a quem se confia cada vez mais. E. . . comea a devanear: por que essa 
mulher socialmente to distante dela, mas a quem adorou desde o primeiro encontro, 
se ocupa dela com tanto carinho?... Nada o justifica. . . A menos que... no, isso seria 
uma loucura. .. e por que no, no fim das contas? Se sua verdadeira me, aquela que a 
abandonara ao nascer e de quem ela nada sabe, conhecesse a esposa do prefeito? 
Talvez tivesse reencontrado a filha e decidido cuidar dela, sem se dar a conhecer, por 
intermdio da sra. V.. . . A jovem quer tranqilizar seu corao e decide informar-se no 
bairro. Para sua grande decepo, toma conhecimento de que a sra. V. tem o hbito de 
ajudar as pessoas mais desfavorecidas e nada tem de surpreendente que ela aja desse 
modo com fac queime. 
A 8 de agosto, quando aguardava apenas um beb, nascem Christine e Magali. A vida  
dura para a jovem me. Torna-se ainda mais dura quando Paul, seu marido, volta a 
Bourges. Ele  brutal, bate-lhe, embriaga-se, trabalha irregularmente, freqenta outras 
mulheres. Jacqueline fica grvida de novo. A violncia de Paul acentua-se: so agora 
sevcias sdicas contra sua mulher.
Jacqueline vive no pavor de que os servios sociais, alertados pelos vizinhos, lhe retirem 
as crianas para confi-las  curadoria de menores, o que acontecer se a misria em 
que vive essa famlia for conhecida. No se atreve sequer a solicitar a assistncia mdica 
gratuita, com medo de que se descubra a situao. 
Em 1952, nasce uma menina, Guylaine; em 1954, um 
menino, Jean-Jacques. 
Jacqueline vive agora o pesadelo do despejo: a eletricidade  freqentemente cortada por 
falta de pagamento e as
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refeies compem-se, na maioria das vezes, de po e queiio. Sua benfeitora parte de 
Bourges e Paul anuncia que a deixa definitivamente. 
Em 1958, Roger, seu novo ompanheiro, instala-se na casa. Trabalha por dois, paga as 
dvidas, ama as crianas. Dele. nasce a pequena Corinne, enquanto Jacqueline ainda no 
obteve o divrcio. 
As gmeas, enfim, decentemente vestidas, vo  escola. Uma outra irmzinha, Nathalie, 
aumenta a famlia. Odette, a irm de leite de Jacqueline, morre de leucemia. Jacqueline 
recolhe a filha dela, Claudine, de trs anos, e adota-a oficialmente alguns anos mais tarde. 
Roger, que tem de alimentar sete crianas, faz da ltima sua preferida. 
Obtido o certificado do curso primrio, Magali e Christine so separadas pela primeira 
vez: internato num colgio e preparao para um diploma de puericultura para uma, 
aprendizagem de cabeleireira para a outra. Christine suporta a separao com 
dificuldade: Fiquei esgotada nesse ano... mas no era eu quem vivia esse sofrimento, 
era uma outra. Magali tinha partido e eu no sabia mais quem eu era. Magali tenta 
distanciar-se de sua famlia, mas sente cruelmente a falta de seus irmos menores, de 
quem sempre se ocupava muito. 
Comea a poca dos namoricos: elas escolhem o mesmo rapaz. Christine paga a Magali 
para que esta lhe deixe o lugar livre e no se faa passar por ela junto ao rapaz. Pouco 
depois, um outro jovem faz uma declarao a uma e depois...  outra. Um outro que se 
enamora de Christine, que no gosta dele, consola-se com Magali. Enfim, ambas se 
casam muito jovens. Christine  a que parte primeiro, para longe. Ambas procuram 
escapar uma  outra; ambas sofrem. Por que nunca poderemos ser felizes uma com a 
outra e uma sem a outra? Magali casa sem amor, s para fazer o mesmo que Christine. 
Quando Christine d  luz Delphine,  Magali quem sente as primeiras dores e assim que 
o beb sai da clnica ela toma-o da irm: Considerava-a como se fosse minha filha, diz 
ela falando da sobrinha. 
Depois, ficam grvidas ao mesmo tempo. Encontram-se na 
rua, cada uma correndo para anunciar a novidade  outra. O 
aborto de Magali  seguido de perto pelo de Christine.
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A necessidade que as gmeas tm uma da outra complica e compromete a vida em seus 
respectivos lares. 
Christine d  luz um menino, Damien; Magali foge para o sul. Sua irm no suporta ficar 
to longe dela; endivida-se e passa as noites na estrada de ferro para v-la por alguns 
instantes. 
Divrcio, novo casamento, segundo divrcio... separaes e reencontros das jovens. 
Deixaremos por a o desenrolar da biografia de ambas, limitando-nos a fazer sentir o 
poderoso vnculo que as une  um calvrio, dizem elas, uma tara, um inferno , 
colocando a vida de uma nas mos da outra, que por isso a odeia, na mesma medida do 
amor que lhe dedica. Assim, Magali: Eu odiava Christine, porque ela tinha filhos; ela 
odiava-me, porque eu os tomava dela. Nossa existncia  um inferno. E Christine: Se eu 
tivesse gmeos no ventre, trataria de abortar. Christine considera no haver outra 
alternativa: dar um filho a Magali torna-se uma necessidade, o nico meio de manter sua 
gmea viva. 
O que sabemos da fratria encabeada por ambas? Guylaine, a irm que se lhes segue, 
sempre foi cmplice delas: 
Ela nos ajudou como s uma irm pode faz-lo. Tal como suas irms, Guylaine adora as 
crianas. Tem trs filhos. Empresta-os a elas. Magali fica com o primognito ao sair da 
maternidade, conserva-o consigo por longo tempo e quer adot-lo. ii preciso que o pai de 
Julien exija sua devoluo para que se separe do menino. Christine, grvida da criana 
que deve dar, pede a Guylaine que lhe confie aquele que ela espera para breve. Assim foi 
feito. 
Os emprstimos de filhos so correntes na fratria. As crianas circulam de lar em lar, 
sempre bem acolhidas. Dizem- nos que elas chegam a chamar titia  me e mame  
tia. 
Podemos agora retomar nosso propsito inicial: existe um problema comum s mulheres 
dessa famlia. E qual ? 
Tudo se passa como se, a cada gerao, as mulheres tivessem necessidade de 
questionar, de se questionar sobre um referencial a respeito da origem: o que  ser o filho 
de uma me? Ou, inversamente: o que  ser a me de um filho?
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O referencial questionado nessa famlia abre vrias alternativas: ser me  dar  luz e 
abandonar?  recolher e criar? Ou  dar  luz e criar? 
A situao de fato de Madeleine (a av) e de Jacqueline (a me) corresponde  segunda 
possibilidade: ser o filho de uma me  ser recolhido e criado por ela. Como 
compreender que essa espcie de resposta fornecida pelas circunstncias da vida no 
seja tida como suficiente? 
A alternativa recolher e criar comporta uma incerteza: 
ser recolhido  ou no s-lo para sempre? Se no existe adoo, se a resposta, 
portanto,  no, aparece o risco de abandono fazendo eco ao abandono anterior pela 
me desconhecida. Madeleine e Jacqueline no foram adotadas. Pode-se construir algo 
na base de um referencial que no permite contar com um vnculo duradouro, indestrutvel? 
A criana poderia ser como sua filha, acreditar que  sua filha, e depois. . . no o ser 
mais! E, se fosse devolvida  Assistncia Social, reencontrar-se-ia diante da incgnita da 
origem materna, aps dois abandonos! 
Nada sabemos sobre o que a av poderia ter dito a respeito do que procuramos 
compreender. Sabemos, em contrapartida, que sua vida comporta a encenao de uma 
srie completa de alternativas. Ela prpria  abandonada, recolhida e no adotada. 
Casada, d  luz uma filha. Ser-se-ia tentado a pensar que seu drama inicial ficava assim 
apagado, ou superado, ou reparado.. . Nada disso, O questionamento sobre o referencial 
materno permanece, atuando nos mesmos termos. Com efeito, quando sua filha completa 
quatro anos, Madeleine recolhe uma criana recm-nascida, que no adotar. Ela 
reproduz, portanto, sua prpria situao. A nfase recai, entretanto, sobre a segunda 
proposio nas alternativas que salientamos: 
o relato deixa claro, desde o comeo, que Madeleine decide no adotar a criana, a fim 
de poder entreg-la se as coisas ficarem duras demais. O drama no podia ser exposto 
com maior crueza. Ela recolhe porque pode devolver, porque no quer comprometer-se 
para a vida toda, incondicionalmente.  tentada a devolver a pequena Jacqueline, 
primeiro quando v que o beb se encontra num estado alarmante, depois em seguida  
morte do marido, pois a vida torna-se, efetivamente, muito dura para ela, que se v de 
novo sozinha com duas filhas para criar.
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Ao considerar a vida de Madeleine, a av, constatamos que um dado inicial (o fato de ter 
sido abandonada, recolhida e no adotada) foi deliberada e ativamente reencenado por 
ela como para que o questionamento permanecesse aberto, ou porque o questionamento 
permanecia aberto, necessrio para ela. 
Vejamos agora como as coisas se passaram na vida de Jacqueline. por volta dos nove 
anos que ela fica sabendo a verdade sobre sua vinda ao mundo. Isso  um choque para 
ela. Quer mal  sua me de criao por lhe ter revelado a verdade. Quem  sua 
verdadeira me? Por que foi que ela a abandonou? Esse enigma ir obcec-la durante 
a vida inteira. Nos anos seguintes, ela desprende-se de sua me de criao. No 
sabemos o que ela pde perceber da tentao que essa me teve de a devolver  
Assistncia Social, mas somos levados a ligar os dois movimentos, respondendo o 
segundo ao primeiro. Depois: 
1) Adolescente, ela faz-se apreciar tanto por uma patroa que esta quer adot-la 
legalmente, embora tenha uma filha da mesma idade. No dispomos de detalhes sobre 
essa conjuntura, a qual reproduz a de sua chegada  famlia Bridier. Apenas podemos 
registrar a repetio e, uma vez mais, o fato de que uma resposta ao alcance da mo 
fica em suspenso: como se pode ser adotado? 
2) O episdio da benfeitora, que ela fantasia ser-lhe enviada por sua verdadeira me, tem 
lugar no sonho de toda a criana rf ou abandonada; dos verdadeiros pais s podem vir 
coisas boas. 
3) Em seus anos de misria e afastamento, quando Jacqueline tem duas, depois trs, 
quatro, cinco crianas, encontrando-se todos numa situao-limite, do ponto de vista vital, 
a idia que a obceca  que poderiam vir tirar-lhe os filhos. Ela suporta privaes e 
sevcias sem pedir ajuda a ningum, s para conservar as crianas. Afirma ento: uma 
me nunca se separa de seus filhos. 
4) Quando est com seis filhos, adota legalmente a filha de sua irm de leite. V-se a 
primeira concretiiao da resposta prpria da linhagem: adota-se a criana da irm. 
Com efeito, parece que o gesto de Christine dando seu filho a Magali representa o ponto 
limite de uma tentativa comum
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para tornar aceitvel, vivvel, confivel, o fato de trocar de me. Ser recolhido, criado por 
uma tia materna torna-se, ao fio das geraes, como que um ancoradouro onde se podem 
lanar as amarras. Vimos as diversas etapas: ama-se a criana recolhida como a sua 
prpria filha; adota-se a criana de sua irm de leite; na fratria das gmeas, os filhos so 
incessantemente emprestados por longos perodos de tempo e a idia de adoo est 
sempre presente. O par gemelar reduz a distncia me-tia  menor diferena imaginvel. 
 tambm como se estivesse finalmente esvaziada a ltima das alternativas que 
sublinhamos mais acima, a saber: 
Ser recolhida  s-lo para sempre? Na fratria das gmeas, as tias que acolhem seus 
sobrinhos e sobrinhas gostariam de conserva-los para sempre, e os pais tm de se impor 
para recuper-los.  crlana ama  e.ia attes reivindicada como deles, simultaneamente 
pelos pais e tias. 
A criana que Christine d a Magali foi reconhecida por ela, antes de ser abandonada, e 
Magali, sua tia, adotou-a. Mudou de me, mas sabe (saber) quem a ps no mundo, e a 
adoo assegura-lhe um status irreversvel junto de sua segunda me, O desejo de trs 
geraes de mulheres encontra-se, ao que parece, realizado: poder mudar de me sem 
ser desenraizado. 
Mas a que preo! A onde os meios de comunicao de massa colocam em destaque o 
amor generoso de Christine e o reconhecimento de Magali, o relato mostra-nos que, de 
uma parte e de outra, a depresso, a angstia, o medo de enlouquecer, o suicdio, o dio, 
esto presentes. A idia de morte ronda, pois cada uma das gmeas corre o risco de 
perder-se na outra, seu duplo e seu reflexo. 
Nossa hiptese, segundo a qual uma mesma interrogao 
 retomada de gerao em gerao,  tambm corroborada por 
dois elementos biogrficos: 
1. No mesmo momento em que a mdia passa a ser um dos atores da encenao, 
Chrjstine reintroduz nela, precisamente, a me e a av, a me natural de Jacqueline. 
Porque sua me se queixava freqentemente de nada saber sobre sua origem, Christine, 
com o apoio dos jornalistas, empreende dili- 
76



gncias para tentar reencontrar a pista, a identidade de sua av natural. Mas os arquivos 
da Assistncia Social foram destru- dos durante a guerra. Poder-se-ia associar mais 
explicitamente o que ocorreu com os ascendentes ao que se passa presentemente? 
2. Quando as gmeas procuram um editor para publicar-lhes a biografia, dizem que 
comearam a escrev-la. Verifica-se que o que tinham escrito dizia respeito unicamente 
 histria da me delas, concentrada em seu abandono. S conseguiro ir mais alm 
graas  presena de um terceiro que lhes colher os depoimentos. 
Cumpre-nos observar, ainda, que a concretizao gemelar da interrogao comum 
reabilita as avs que abandonaram seus filhos. Christine declara, de imediato, aps a 
interveno da imprensa: Eu fazia questo de que todo o mundo soubesse ser 
desumano, anormal, gerar um filho para d-lo em seguida a uma outra mulher. Em 
outras palavras: as avs amaram as crianas que geraram e sofreram por abandon-las. 
Compreende-se e comunga-se com elas o que elas podem ter sofrido. Essas crianas 
abandonadas sabem que foram amadas por suas mes desconhecidas, podem pensar 
numa me amorosa que ficou dilacerada de dor por t-las abandonado. 
As avs so ainda reabilitadas de uma outra maneira: a doao de um filho de Christine  
sua irm gmea  testemunho de que tambm se pode abandonar por amor. O 
abandono converte-se num ato de amor por excelncia  mulher que acolhe. A mdia e 
numerosas pessoas louvaro a doao por amor, e a palavra abandono quase 
desaparece dos comentrios. O gesto de Christine  socialmente legitimado. 
77



Resumindo: o que dissemos a respeito da av Madeleine pode ser repetido a propsito 
das trs geraes de mulheres da linhagem. A pergunta O que  ser uma me?  
suscitada por uma situao dolorosa imposta pela vida: ser abandonada, recolhida, no 
adotada. Duas geraes depois, aps a elaborao que se pde acompanhar, uma 
situao prxima  escolhida por Christine e Magali, apesar dos sofrimentos que ela 
implica. O drama da adoo  encenado, voluntariamente e at os limites do desespero. 
O que  transmitido de uma gerao a outra tem a forma de uma questo mantida em 
suspenso e constantemente reiterada, uma questo que afeta um referencial fundamental 
da vida: o da origem materna. 
Transmisso 
Por quais vias se realjza a transmisso dessa espcie de herana? Como percebe a 
criana o que lhe vem dos ascendentes? 
J. Guyotat, em seu livro Mort, naissance et filiation, interrogou-se longamente sobre o que 
ele chama de a psicopatologia da filiao e a permeabilidade entre as geraes. 
Reteremos dele as seguintes observaes: 
 na maioria das observaes de delrios de filiao,  habi. tua! verificarem-se 
anomalias familiares reais: sua incidncia sobre a ecloso do tema delirante apresenta-
se com bastante clareza tanto ao ambiente quanto ao interessado 
(p. 23); 
 preocupaes relativas  hereditariedade deduzem-se facilmente do discurso de 
numerosos pacientes, citando-se: . 
a freqncia de um segredo, um no-dito familiar que o doente parece muitas vezes 
ignorar, mas ao qual o delrio responde (p. 22); 
 em mltiplas observaes, um evento familiar grave... precede de perto o incio 
aparente da psicose (p. 24); 
78



 se numerosos elementos da realidade intervm sem dvida em sua gnese, cabe 
assinalar que esses delrios reagem 
bastante bem aos testes de realidade (p. 27); 
 assinale-se, enfim, que esses pacientes do freqentemente prova de um faro 
extraordinrio para eventos histricos precisos e vividos na gerao precedente, dos 
quais o delrio nada mais , em suma, do que uma interpretao (p. 74). 
Estas observaes corroboram nossa hiptese de que um estado patolgico est 
enraizado em dados exteriores ao indivduo. Mas como explicar o faro extraordinrio dos 
psicticos, sua perspiccia diante de eventos familiares que a vida relega  escurido? 
Guyotat aponta, a esse respeito, a telepatia, a transmisso de pensamento, o que nos 
mostra somente que ele ficou muito impressionado com o que viu e no ousa dar uma 
explicao. O folclore no fala de vidncia? De que  feita a estranha perspiccia 
daqueles que no sabem, a criana, o psictico, o inocente? 
A primeira pergunta a ser formulada poderia ser a seguinte: qual  a natureza dos dados 
para os quais a criana ou o psictico parecem sensibilizados? Trata-se de dados 
humanamente elaborados, dados intra-especficos tais como os eventos familiares de que 
fala Guyotat. No so quaisquer estmulos que afetam de maneira preferencial a 
sensibilidade de um ser vivo. Existe, sem dvida, na criana, assim como em outros 
mamferos jovens, uma sensibilidade para o congnere (ou para aquele que lhe pode ser 
assimilado), capacidade inata favorvel  sobrevvncia da espcie. A interestimulao 
precede amplamente a curiosidade desinteressada pelo mundo.  examinando, por 
exemplo, a maneira como o beb somatiza suas reaes afetivas que se pode 
compreender em que sentido, no comeo da vida, o psquico e o somtico ainda no 
se diferenciam, e como essa diferenciao se opera ao mesmo tempo que a criana 
aprende a distinguir seu corpo do corpo da me. As reaes emocionais precedem a 
aquisio do controle motor e da linguagem; o afeto precede a organizao motora 
necessria  gnese das intenes pessoais. Na medida em que o estado de 
dependncia infantil se prolonga no psictico,
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 possvel que a acuidade das percepes afetivas seja menos recalcada nele do que nos 
outros. O faro do inocente  a contrapartida de sua dependncia afetiva. S chegamos 
penosa e tardiamente a conceber um universo fsico indiferente  nossa sorte; s o 
conseguimos atravs dos artifcios do clculo e da tcnica. Como todos os animais, 
somos primeiramente sensveis ao nosso meio vital. Esse meio humano, divino, antropo- 
mrfico,  muito mais estreito do que o universo fsico; tem por limite a ecologia especfica 
da reproduo, da sobrevivncia. Pode-se compreender assim a sexualidade infantil 
como uma espcie de sensibilizao para o congnere muito mais complexa do que nos 
outros animais, em virtude de nossa aptido lingstica. 
Essa hiptese tem a vantagem de nos orientar para algo que possamos descrever e que 
seja empiricamente discutvel. De que modo uma criana chega a perceber esses dados 
humanamente elaborados que so os segredos de famlia, os pontos sensveis do adulto, 
seus pontos de fragilidade, mas tambm (por vezes, ao mesmo tempo) o que tm de 
melhor e que toca o corao? Deve ser possvel responder a essa questo sem postular 
faculdades extraordinrias. A ttulo de indicao, daremos dois exemplos. 
1) Primeiro exemplo: a gua perigosa 
Uma famlia numerosa: um filho, sete filhas. Camponeses-artesos abastados, porque 
trabalhadores incansveis e bons administradores de seus bens: fazenda, pomares, firma 
de explorao de pedreiras. Bom entendimento e vida familiar calorosa. Catlicos 
fervorosos por tradio, generosos em todos os aspectos em relao aos mais 
desfavorecidos de seu ambiente. 
Pai e me so personalidades fortes. Ele, empreendedor, criativo. Ela, infatigvel: 
parindo, aleitando, administrando o numeroso pessoal da casa, fazendo a contabilidade  
noite, apreciada pelos seus e por toda a aldeia. 
Depois de casados os filhos, a fazenda continua sendo o local de freqentes reunies 
familiares. Os genros, de qualidades desiguais, so sempre bem acolhidos. Tenses? 
Por certo, mas o ideal compartilhado de uma vida em famlia os
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mantm em surdina. Para os netos,  um mundo feliz, como podem ser os dos sonhos. 
Atravs de que sinais um dentre eles perceber o drama escondido de que ainda no 
falamos? 
O drama: a me da famlia fora casada antes, muito jovem, com um homem de quem ficou 
viva dois anos mais tarde. Como foi que morreu esse marido? No se sabe. A criana 
ouvir palavras esparsas, fragmentos de conversaes entre adultos: crise e era um 
doente 
A filha nascida desse primeiro casamento est sempre ausente. Seu nome raras vezes  
pronunciado: Marie. A av diz: Minha pobre Marie. Ela est doente, isto  dito s 
vezes. Est num hospital. Longe. Muito depois, a criana saber que se trata de um 
hospital psiquitrico. Raras fotos de Marie nos lbuns de famlia. 
De tempos em tempos, a av vai v-la. Projeto anunciado em meias palavras. Diz-se: A 
vov vai a X. . . e no: vai ver Marie.  como se a av fosse a um funeral: roupas sbrias, 
fisionomia rgida, olhar que no pousa em nenhum membro da famlia feliz, mas se fixa 
num outro mundo. Quando regressa, mal se ousa olh-la, to horrorosa  a dor que a 
domina. As vozes familiares que a acolhem so sussurros, as palavras contornam a dor. 
Diante das crianas, trata-se apenas do cansao da viagem, do calor. . . nada de tia 
Marie. Todas as tias que podem esto presentes nesses regressos, mas s as filhas mais 
velhas, dado que elas compartilharam das angstias dos anos que precederam a 
hospitalizao de Marie e esto aptas por isso a rodear a me silenciosamente. As tias 
mais jovens no esto no mago do drama. A criana que assistiu a dois desses 
regressos no captou uma s palavra que o esclarea. Conserva a lembrana de 
mulheres, como que feridas, acotovelando-se em torno da me, a mais ferida dentre elas, 
uma espcie de bal muito sombrio e muito discreto. 
O marido da tia Marie vive na aldeia. Est presente nas reunies de famlia, acolhido 
como os outros genros, apenas com a pequena diferena de que um timbre de piedade, 
de compaixo, de tristeza, ressoa nas falas que seus sogros lhe dirigem, como ao falar a 
algum atingido por um luto recente. 
81 


Para a criana, esse tio est  parte,  diferente dos outros tios, mas no saber dizer por 
qu. 
Antes de desaparecer, internada num hospital, Marie tinha dado  luz uma filha e dois 
filhos. Na dolescncia, com alguns anos de intervalo, os dois rapazes morrem afogados: 
num aude, o primeiro; num riacho, o segundo. 
s crianas mais novas, aos primos portanto, diz-se que eles se afogaram porque foram 
muito imprudentes. Esses primos, que adoram ir banhar-se no rio, ouvem a av repetir 
todo santo dia que  preciso ser prudente. Percebem a ansiedade dela quando eles saem 
em bando para a beira de qualquer lago ou rio das vizinhanas, e depois seu alvio 
quando regressam. Ela manifesta apenas o que  banal; entretanto, percebe-se a sombra 
de um segredo. Em particular, porque nenhum elemento de perigo externo  mencionado 
a propsito dos dois afogamentos: nem uma correnteza forte, nem profundidade da gua, 
nem ignorncia da natao. Era como se tivesse sido suficiente haver gua, uma 
presena de gua, para que os dois primos tivessem se afogado sem mais nem menos; 
como se a gua os tivesse tragado; como se brincar  beira da gua, ser atrado por um 
rio, fosse um sinal de perigo. Como dar a entender melhor, sem o dizer, que o perigo era 
a atrao ao suicdio? Uma das crianas, uma prima, como que para se proteger da 
ansiedade que as advertncias andinas da av difundem por ocasio das excurses 
para banhar-se no rio,  levada a desmenti-las, afirmando que no, que no h o menor 
perigo: 
ela acaba de atravessar a nado o grande lago, mergulhando assim, explorando um 
pequeno aude desconhecido... 
As fotos dos primos mortos esto sobre a lareira na grande sala comum; nas paredes h 
as de outros mortos. s vezes, quando a av se demora um instante diante das fotos das 
pobres crianas, seu olhar  diferente daquele que dedica s outras. Entre elas 
encontra-se a de um outro primo, morto por doena. Sobre este ltimo, acontece de uma 
criana indagar: 
que idade tinha? Por que morreu? Sobre os dois irmos nunca;  impossvel. 
Obscuramente, a criana pressente que sua pergunta constrangeria e que a resposta 
seria evasiva. Portanto, cala-se e os sinais em vcuo acumulam-se. 
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Um deles, entretanto, sobressai em virtude de uma transferncia:  a reao da av 
quando l a notcia de um acidente ou de um afogamento nos necrolgios. Ela comenta: 
Que infelicidade! Os acidentes acontecem quando menos se espera! Que cruz para os 
pais! A gua  traioeira!. . . E sempre aquela voz e aquele olhar diferentes dos que se 
referem a outras desgraas. 
O av no fala desses adolescentes afogados: eles no so de sua linhagem. No entanto, 
 um av que ama a irm restante, apesar do carter s vezes bizarro dela. Na idade 
adulta, casada, me de um filho, sua vida ser marcada por alguns acessos delirantes 
com impulsos suicidas. 
Uma linhagem patolgca, delirante e suicida, tal  a infelicidade, a tara que se deve 
esconder. 
A criana cujas lembranas evocamos no pertence a essa linhagem. Ela no  afetada 
no essencial de sua vida; o drama no detm os dados de sua identidade, de seus 
referenciais. E, no entanto, as diversas mensagens que ela capta assinalam- lhe, 
desenham-lhe o enigma dessa linhagem paralela  sua. No sabe do que  que se trata 
precisamente. Nas conversas dos adultos, encontra zonas de sombra nas fronteiras das 
quais no h mais conversas possveis: nem perguntas nem respostas. Permanece, pois, 
nas fronteiras. Entende muito bem que, nessas zonas,  de mortes que se trata: morte do 
pai da tia Marie 
afastamento/morte da tia Marie , morte de seus dois filhos. Algumas palavras captadas, 
retidas, transpassam a sombra: Crise, Era um doente; ela  doente, sempre, longe. 
Fala-se dela como de uma morta; eles estavam  beira da gua e afogaram-se. 
Mensagens a minima, mas que bastam para situar o drama: mortes de que no se deve 
falar. Ser perigoso? Ser vergonhoso? perigoso para os pais. No a idia, mas o 
sentimento de suicdio surge nela a propsito da gua que atrai e mata. Tudo est a, a 
morte misteriosa que acompanha a sucesso das geraes. 
No podemos nos colocar no lugar de uma criana dessa linhagem (isto , da filha 
restante), mas podemos, sem dvida, afirmar que, desse seu lugar, as mensagens que ela 
recebeu, captou, foram muito mais numerosas, muito mais fortes e in-
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sistentes do que as recebidas pela prima, e que elas interpelavam de maneira mais 
central, determinante quanto ao sentimento de si mesma e de seu futuro. 
O que esta histria familiar tenta pr em evidncia  que o drama silencioso, encoberto, 
recoberto pela vida dessa grande famlia  transmitido aos descendentes sem que seja 
necessrio postular uma comunicao de inconsciente a inconsciente. Os sinais retidos 
pela criana delimitam zonas de sombra em torno das mortes em cadeia e, ao mesmo 
tempo, indicam- lhe como, na rede de parentesco, essas mortes misteriosas afetaram e 
ainda afetam cada um. 
2) Segundo exemplo: as questes sobre a sexualidade 
Quando os pais falam conosco das dificuldades que defrontam para informar seus filhos 
das coisas da sexualidade, 
pode-se com freqncia fazer as seguintes constataes: 
a) E raro que a criana faa perguntas s quais os pais no querem ou no podem 
responder, por se sentirem embaraados ou por no terem palavras para tanto. Se a 
criana pergunta algo para alm do que os pais suportam ouvir, raramente ela volta  
carga. Registra o limjte e cala-se. Ouve-se, ento: A sexualidade, isso  coisa que no 
lhe interessa, nunca faa perguntas... alis,  ainda muito novo, ou: Eu no saberia 
explicar-lhe. 
b) As perguntas, na criana, so deslocadas: uma est apaixonada pelos primeiros 
homens, a pr-histria, as origens do mundo, as semelhanas. . .; outra relata as 
conversas de um amigo em cuja casa se espera a chegada de uma irmzinha...; esta 
desenha personagens ou objetos que so engendrados de maneira absurda, como que 
para um adulto repor as coisas em seus devidos lugares. . .; aquela, em tom de 
brincadeira, lana uma frase no ar: A menina Mimi-Grabouille no tem pipi, sim, no, sim, 
no... Ela  biruta! Os adultos tm liberdade para ouvir isso como uma brincadeira, uma 
tolice, um ele diz qualquer coisa que lhe venha  cabea, ou para ouvir realmente 
a.criana. Quando, ao falarem conosco, os pais puderam comentar 
seu constrangimento ao responder ao filho e abordar a desco-
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berta por eles prprios da sexualidade com suas ansiedades e 
suas frustraes, 
 por um lado, eles se lembram de perguntas indiretas que lhes foram dirigidas pelo filho 
e percebem seu alcance, ou se recordam de uma antiga pergunta direta que eles puniram 
ou fingiram no ouvir; 
 por outro lado, se, numa entrevista, alguma inibio pde ser superada, alguma 
confiana restaurada, alguma interdio transposta (por exemplo, dando-se conta de que 
quando tinham a idade atual do filho tinham uma curiosidade muito viva, mas que no 
podia se manifestar), percebe-se que, pouco tempo depois, a criana faz precisamente a 
pergunta ou as perguntas que podem agora ser ouviclas e receber uma resposta. 
Podem ser feitas observaes anlogas quando uma criana faz perguntas a propsito 
da morte. Por exemplo,, se se trata de um luto ou de uma doena grave na famlia, e os 
adultos procuram silenciar sua dor ou sua inquietao na presena da criana, esta 
sondar o terreno. Far perguntas sobre a morte de um co ou de um pssaro, sobre as 
mortes verdadeiras e as mortes no verdadeiras nas histrias, sobre a idade das 
pessoas que morrem etc. Se os adultos so incapazes de lhe falar da provao familiar, 
ela deter-se-  sempre com uma preciso extrema  quando perceber a confuso ou a 
impotncia, digamos, de seus pais. Nenhuma criana poderia suportar pr seus pais 
numa situao de constrangimento; ela precisa muito de os sentir firmes, slidos e 
decididos. Essa necessidade  prioritria.  mais fcil para ela permanecer no vazio 
angustiante de um luto silencioso, ou na incoerncia de conversas que desmentem a 
tristeza ambiente, do que levar seus pais ao limiar do que lhes  impossvel. 
Em suma, a criana procura os pontos de referncia que os pais podem dar-lhe, explora o 
que  possvel para eles e, quando esbarra num limite, procede por transferncias, 
eventualmente por construes fantasiosas. Evidentemente, os exemplos que demos tm 
apenas um valor indicativo; no poderiam, de modo algum, substituir um estudo 
sistemtico.
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5. OBJEO E OBSTCULO 
Os direitos da criana
Muitos colegas com os quais discutimos as posies que defendemos no que concerne 
s entrevistas preliminares  criar condies de fala e de escuta tais que os ascendentes 
da criana, s vezes os colaterais, possam falar tanto quanto desejarem da criana, deles 
prprios, da famlia, obter o acordo dos pais para toda deciso referente  criana  
reagiram de imediato, muito vivamente, com esta pergunta: E os direitos da criana, 
onde  que ficam? 
Esses colegas estavam persuadidos no s de que a criana tinha o direito de ser ouvida 
com prioridade, antes de seus pais, mas de que era a solicitao dela que devia ser 
levada em conta, mesmo quando aqueles, ou um deles, no concordassem com um 
tratamento. Para nossos colegas, os problemas, os sofrimentos que a criana procuraria 
superar seriam ou relativamente independentes dos dados familiares ou, ento, embora 
lhes parecessem ligados a estes ltimos, poderiam ser resolvidos na criana, para a 
criana apenas. Se eles pensam que a famlia , em parte, responsvel pelos transtornos 
apresentados, isso torna-se uma razo para afast-la. Poderamos caricaturar essa 
argumentao assim: j que a famlia  incompetente, culpada ou doente, ajudemos a 
criana a livrarse dela, para que possa, enfim, ser ela prpria. 
Ainda, para esses colegas, quando se admite que os ascendentes ocupam um lugar 
importante nas entrevistas,  como se
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a criana estivesse sendo trada, posio freqentemente mais acentuada naqueles que 
trabalham em instituies para crianas. Em suma,  como se ser para a criana 
implicasse no ser para os pais, para a famlia, como se, no comeo, fosse oportuno 
escolher seu campo. 
Nossa maneira de discutir esse ponto de vista consistir em indicar o que so, para ns, 
os direitos da criana e os deveres do analista.
Uma criana que nos procura por sua vontade ou trazida pelos pais tem o direito de 
encontrar em ns: 
1) a garantia de poder situar-se em relao a ambos os pais (o que lhe evita ser 
apanhada na armadilha de uma relao dual) 
2) a expectativa de seu acordo para voltar a nos ver, aps as entrevistas preliminares; 
3) o tempo necessrio  sua tomada de deciso antes de um eventual compromisso 
teraputico e, evidentemente, o respeito a essa deciso. 
1. Consideramos necessrio que seja marcada por palavras, em todos os casos, a 
referncia da criana a seus pais. 
Isso faz-se naturalmente quando: pai e me realizam o processo juntos; um e outro falam 
do que desejam para seu filho; pem-se de acordo para decidir, ou, ento, quando a 
criana fala de seus pais, nem que seja para dizer que os odeia. 
Mas no  raro que uma me conduza sozinha o processo, dizendo, por exemplo, que seu 
marido est inteiramente de acordo, mas no tem tempo para vir, ou ento no concorda 
com esses tratamentos, mas a deixa vir, ou no se preocupa com as crianas e no 
saberia o que dizer, ou, divorciado, s acompanha seu filho de longe, ou, enfim, 
abandonou sua famlia e  um sujeito desprezvel. . . em ltima anlise, nada sabe a 
respeito da criana desde sua concepo. 
Em todos esses casos, devemos  criana marcar a referncia que se esquiva ou est 
quase ausente, sustent-la e no substitu-la por ns. Por exemplo: insistir num encontro 
com o pai muito ocupado, mesmo que seja necessrio esperar o momento em que ele 
esteja disponvel e decida comparecer; escrever-lhe pessoalmente, fazer saber  me e  
criana que
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est fora de questo, para ns, iniciar um trabalho sem que o pai tenha podido dizer o que 
pensa e o que deseja para seu filho. 
Afirmar essa terceira referncia, sustent-la atravs de um perodo de espera e de 
negociaes, por exemplo,  assegurar  criana a condio fora da qual toda aceitao 
de compromisso teraputico  uma tapeao. 
Consideremos um caso extremo mas que todos ns j encontramos: uma me quer que 
lhe tratemos o filho e pe obstculos a todo contato entre o pai da criana e ns; ela tende 
a excluir esse homem do processo, tal como o excluiu (ou como ele se excluiu) da vida do 
filho e de si prpria. Se aceitarmos essa concluso, se a reforarmos por exemplo, 
considerando que o pai no conta atualmente, uma vez que abandonou a mulher e o filho 
 estaremos confirmando a me em seu domnio exclusivo sobre a criana e a criana 
numa referncia maternal nica. Em situaes desse tipo, ouve-se dizer:  preciso 
separar essa me de seu filho, e empreende-se um tratamento ou coloca-se a criana 
numa instituio. O que est implcita, ento,  a inteno de colocarmos ns mesmos, 
ou a instituio, no lugar de separador.  o que se pensa fazer, mas isso nada mais  do 
que um equvoco, porquanto se confunde uma posio imaginria  aquela que o -
analista se prope ocupar  com o valor simblico das condies naturais e sociais que 
vinculam a criana s suas origens. 
Ningum pode ocupar o lugar do pai genitor seno ele mesmo. Se ele no o ocupa, cabe 
reconhecer esse fato e marcar por nossas palavras o lugar desocupado. Por vezes, basta 
uma palavra, uma pergunta, uma frase significando que se entendeu a espera, a 
esperana, o desespero, a raiva. . . que so suscitados pelo vazio, os subterfgios, as 
informaes mentirosas ou elpticas, as nicas que se oferecem  criana em busca de si 
mesma. 
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Para ns, nesses casos limites, que pertencem  vertente das organizaes psicticas, 
um tratamento que se iniciasse sob a gide nica da me, sem que tenha sido marcada 
por nossas palavras a estrutura mnima da simbolizao das relaes humanas (a saber, 
a localizao do eu por triangulao), um tal tratamento no poder ter utilidade alguma 
para a construo da criana. Recusando-nos a iniciar um tratamento sem essa condio 
prvia, colocamos uma pedra fundamental de eventuais construes futuras, ato analtico 
importante de nossa parte. Alis,  habitual, quando isso se apresenta, observar na 
criana alguma mudana significativa, mesmo que s a tenhamos visto por pouco tempo. 
Pelo contrrio, querer ocupar o lugar do pai separador , repetimos, abandonar o de 
analista e arrastar a criana para os jogos de seduo, de espelho, de poder, os quais 
no sero analisveis porque o terapeuta no levar em conta o que ele prprio encenou 
sem se aperceber disso. Em compensao, propor, decidir uma separao pode ser 
judicioso depois que a referncia ao pai foi colocada. 
Em contraste com a atitude que criticamos, eis como uma de nossas colegas soube 
tornar presente um pai falecido no ano anterior ao da consulta. Uma ltima entrevista antes 
da deciso de assumir o caso reuniu a me, a criana e a analista. Esta prope: Agora, 
antes de decidirmos os trs, gostariam que nos perguntssemos o que teria pensado seu 
marido, seu pai, se estivesse presente? 
2. Uma criana que nos  trazida por seus pais no est forosamente de acordo para 
voltar a ver-nos e falar-nos. As palavras que mais freqentemente a acolhem so as 
seguintes: 
Voc sabe por que veio aqui? Se a resposta  no, ela ser informada sobre as 
preocupaes dos pais a seu respeito e, depois, quer a resposta seja sim ou no, 
tentar-se- faz-la falar sobre si mesma, ser-lhe- proposto que desenhe, modele, 
fantasie, conte um sonho.. . como se estivesse estabelecido que a criana deve exprimir-
se, abrir-se para ns, pelo simples fato de que seus pais tomaram a iniciativa de nos 
consultarem. Imaginemos um adulto a quem se convidasse para fantasiar no div antes 
que ele tivesse podido dizer o que veio procurar ao consultar-nos! 
90



Essa maneira de proceder negligencia solicitar o acordo da criana para as entrevistas 
preliminares que lhe propomos, omite definir a situao em que ela se encontra de modo 
a poder situar-se nela, saber quem faz o qu, quem quer o qu. Quando se atua assim, , 
quer se reconhea ou no, de seduo que se trata, aquilo que se ouve s vezes qualificar 
de bom contato com a criana. Numa situao em que ela no tem os meios para 
determinar sua posio exata, a criana ser tentada a agradar: agradar  senhora, ao 
senhor, aos pais, a si mesma, a todos ao mesmo tempo, e isso quanto mais ela for 
dependente e quanto mais a senhora for gentil. Outras crianas, mais construdas, daro 
a entender que no esto percebendo nada. l o caso daquela menina que desenhou 
estradas entrecruzadas e explicou ao mdico que o automobilista acabaria se perdendo 
ou sofrendo um acidente, se no houvesse sinais nos cruzamentos nem indicao de 
preferencial. Uma outra criana apresentou um relato qualificado de incoerente; o dilogo 
redundaria numa embrulhada inextricvel se o clnico considerasse que a criana era 
incoerente e no que ele a estava interrogando sobre a situao presente, para ela 
incoerente. Ainda outras reagiro colocando-se na defensiva ou mostrando-se agressivas, 
a fim de se protegerem de nosso abuso de poder, de nossa violncia sobre elas. 
A criana tem direito de ser perguntada sobre o que ela pensa acerca do processo de 
seus pais: 
 Ter pesadelos. . . fazer pipi na cama... no ter amigos. . . ir mal na escola. . . estar 
sempre aborrecendo os outros... isso aflige, inquieta, preocupa voc por agora ou para o 
que voc quer fazer mais tarde? 
 Seus pais pensam que isso no pode continuar como est. . . voc gostaria que as 
coisas mudassem? 
 H outras coisas que incomodam voc e de que gostaria de falar? 
 J que gostaria de que essas coisas mudassem, quer que procuremos juntos um meio 
de ajudar voc? 
 Tambm poderamos voltar a falar com seus pais, todos juntos, ou voc com eles, ou 
eu com eles, e em seguida 
poder decidir o que seria mais til para voc.
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No indicamos aqui as perguntas-padro, como o faria um manual. Procuramos apenas 
indicar uma direo de trabalho; cada um deve encontrar seu prprio estilo. Trata-se de 
permitir que uma eventual solicitao da criana possa evidenciar-se: ela sofre? No caso 
afirmativo, suas queixas so as de seus pais a respeito dela? O que  que ela procura? 
Quer ser ajudada? 
Certamente, as respostas da criana podem ser ambguas, ambivalentes, evasivas. 
O gnero de enunciados que propomos define claramente os lugares e as intenes: o 
que os pais pretendem  distinto do que a criana pode querer. Mesmo no sendo ela 
atualmente capaz de exprimir um querer independente, seu lugar  marcado por ns como 
podendo ser o dela quando desejar e for capaz de ocup-lo. O desejo do analista tambm 
 distinto do dos solicitantes: ele pretende colocar-se a servio da deslindao dessas 
diversas intenes que se buscam, no tem projeto para a criana, no sabe o que seria 
para o bem dela; prope-se como suporte para ajud-la a encontrar a si mesma. Enfim, 
em nossas palavras, so reconhecidos ao mesmo tempo a autonomia em marcha, 
possvel, da criana, e seus vnculos de dependncia com os pais, a famlia, os seus, 
como se costuma dizer. 
Se a criana aceita reencontrar-se conosco a fim de ver o que seria til para ela, isso 
significa que nos autoriza a explorar com ela a solicitao de seus pais e a sua, a 
questionar com esse objetivo, a comentar suas falas em funo desse objetivo 
reconhecido. Se, nessa etapa, ela nos fornece desenhos, fantasias, temos de receb-los 
em situao de entrevistas preliminares e no em situao de tratamento. Nossas 
intervenes sero orientadas e eventualmente limitadas pela perspectiva da deciso a 
tomar. 
De acordo com a solicitao de um ou de outro, certas entrevistas poderao reunir os pais, 
ou um dos pais, e a criana. A quem receber em primeiro lugar? Em que ordem receber? 
Muitas conjeturas que mereceriam ateno e discusso podem ser apresentadas. 
Entretanto, no nos deteremos nelas, pois temos de nos limitar a certos pontos-chave.
92



No importa o grau de insistncia dos pais para obter um compromisso de tratamento,  
ponto pacfico que garantimos  criana o espao de uma liberdade possvel, de uma 
recusa. Tambm para ela abrimos o tempo. Propomos-lhe que pense nisso e volte 
depois. . . , que venha uma vez. 
duas vezes. . . algumas vezes e decida em seguida. Se ela recusa finalmente iniciar o 
tratamento que seus pais desejam, por que no convid-los a vir e falar sobre o filho? Se 
consentirem nisso, a situao evoluir. 
Outros pontos nos retero. Certas crianas, quando se aborda com elas as queixas dos 
pais, os sintomas de que eles nos falaram, parecem no se interessar por nossas 
palavras, como se no lhes dissessem respeito; s vezes, at como se no as 
entendessem. Elas esto distantes, em outro lugar. No pedem nada. No se expem. 
No fornecem material nenhum. O que  que pensa disso? Um dar de ombros, um 
muxoxo, um no sei, um como quiser. . . so suas respostas. Em todos esses casos, 
em compensao (sublinhe-se que no se trata, em absoluto, de crianas situadas na 
vertente autstica), elas concordam claramente em que falemos mais tarde com seus pais; 
nossa pergunta, desta vez, interessa-lhes. Se os pais vm falar, ficar evidente que a 
criana  dominada ou impedida por tenses, por conflitos que no so realmente seus, 
sobre os quais no tem qualquer controle, porque se relacionam com seus ascendentes. 
Podemos compreender que a criana nada tenha a dizer: ela deixa a palavra para seus 
pais. 
Um outro ponto: algumas crianas reconhecem que tm determinado sintoma at mesmo 
excessivamente penoso,. mas no desejam que isso mude. No sabem explicar as 
razes. Um exemplo banal: 
Martin, oito anos,  levado a uma consulta porque gagueja. . uma gagueira relativamente 
leve, que o incomoda muito na escola, diz ele, e em casa  incessantemente repreendida: 
recordam-lhe as instrues dadas pela fonoaudiloga que o acompanhou sem sucesso. 
Seria mais correto dizer que os pais utilizam certas recomendaes da fonoaudiloga 
para extrair delas as injunes que lhes convm. Martin declara ao mesmo tempo que 
est aborrecido por gaguejar e no, vamos dei-
93



xar as coisas como esto.. . no, no quero vir para tentar mudar isto. 
Para compreend-lo, basta considerar os dados familiares, os dados de seu problema. 
Seu irmo de dez anos aparece, atravs das palavras dos pais, como um verdadeiro 
pequeno rob: 
estudante meticuloso, absorvido pela preocupao de seus resultados escolares, sem 
amigos, confinado em casa, muito srio. Seus pais felicitam-se por todas as qualidades 
do menino, que corresponde plenamente s expectativas deles. Compreendemos que ele 
satisfaa ao carter obsessivo do pai e se submeta ao estrito controle da me. Quanto a 
Martin, pelo contrrio, aparentemente despreocupado e brincalho, inquieta os pais; 
apreciam, porm, seu humor e sua capacidade de se fazer apreciar fora de casa, de fazer 
amigos. 
Quando se conhece o contexto, o comentrio  quase intil. A gagueira  o meio utilizado 
por Martin para protestar contra o funcionamento sufocante de sua famlia.  a porta que 
ele entreabre para o exterior. Incapaz ainda de resistir frontalmente aos pais, tem um libi 
para seus desempenhos escolares apenas medianos, diferenando-se simultaneamente 
de seu irmo. Resiste s injunes da me a respeito de sua gagueira sem se fazer 
tachar de desobediente. A impresso  de que Martin se protege de um modo bastante 
eficaz e de que, graas a seu sintoma, escapar em parte s coeres patognicas. Para 
isso, ele paga um preo: entraves na escola, reprimendas em casa. Sua recusa de uma 
psicoterapia deve ser respeitada. A evoluo de Martin depende, no momento, do que se 
possa mobilizar nos pais durante as entrevistas que lhes propomos. 
A fico do tratamento-padro 
Gostaria de sublinhar um obstculo comum ao desenrolar das entrevistas preliminares e 
dos tratamentos: so nossas fantasias a seu respeito. Fantasias de um simplismo 
desconcertante se lhes prestarmos a ateno: algumas entrevistas deveriam conduzir a 
uma prescrio/deciso, pois um tratamento deveria desenrolar-se, regular e linearmente, 
at a cura. A norma mdica , decididamente, um poderoso parasita que nos cega.
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O que observamos se nos propomos a acompanhar os consulentes em sua busca 
hesitante e no encaminh-los? J o descrevemos anteriormente no que se refere s 
entrevistas preliminares. A descrio pode ser prolongada para os tratamentos, sobretudo 
para os de crianas, os quais deflagram reaes 
familiares macias. Muitos deles envolvem suspenses, recomeos, mudanas teis de 
ritmo. 
Com grande freqncia, tudo o que contradiz nosso ideal de um tratamento com 
desenvolvimento linear  recebido por ns negativamente;  o caso dos pedidos para 
espaar as sesses, para suspend-las provisoriamente, para tentar alhures uma outra 
espcie de teraputica e, evidentemente, as interrupes 
sem comentrio. Duas observaes a esse respeito: 
1) Os desejos de uma mudana durante o tratamento so quase sempre uma tentativa 
dos pacientes e de sua famlia de reaver o controle da situao. Quando as entrevistas 
preliminares no so conduzidas de forma correta e os consulentes so despojados de 
uma parte de seu poder de deciso, eles buscam, 
subseqentemente, retomar as rdeas, definir o quem quer o qu. Podemos desejar 
atitude mais positiva da parte deles? Entretanto, qualificamo-la freqentemente de acting 
out (atuao), simplesmente porque no soubemos criar um campo de argumentao 
onde o que a acontece poderia ser ouvido e respeitado. 
Tambm, s vezes, um paciente deseja interromper um tratamento corretamente iniciado 
e que, numa primeira seqncia, deixou pressagiar sua fecundidade. Talvez ele deseje 
limitar as reformulaes que a cura permite, mas  possvel que procure antes, ou ao 
mesmo tempo, livrar-se sozinho das dificuldades. 
Se pensa que o pode fazer, no  isso um bom sinal? Raramente o qualificamos assim, 
como se nada, de uma evoluo positiva, devesse nos escapar. 
Entretanto, quando um paciente nos fala de sua inteno ou de sua deciso de 
interromper o tratamento,  lcito proporlhe algumas consultas a fim de que ele esclarea 
da melhor maneira sua deciso, tal como no momento das entrevistas preliminares o 
levamos a pensar com calma antes de decidir tratar-se. 
95



2) No desejo de modificar o curso de um tratamento, manifestam-se tambm os limites da 
evoluo suportvel para uma famlia num momento dado (isso foi por ns evidenciado 
nos casos clnicos que expusemos no captulo II). A prudncia aconselha-nos a estar muito 
atentos a esses limites. Nunca ser demais insistir nesse ponto. Ao querer, no lugar dos 
consulentes, a evoluo de um dos membros de sua famlia, incorre-se em dois riscos j 
apontados: 1.0) o de que a cura estagne interminavelmente, no prprio momento em que 
se produz um material abundante, ou at mesmo de que o paciente regrida por no poder 
suportar tornar-se aquele que subverte o equilbrio atual da famlia; 2.) o de uma 
descompensao num dos parentes prximos. Alguns julgaro que estou fazendo 
terrorismo. Entretanto, quando se est prestes a substituir muitas das evolues julgadas 
positivas em seu contexto familiar, isso converte-se numa constatao banal. 
Quanto mais os casos considerados se situam na vertente psictica, mais se encontra em 
jogo a prpria vida dos parentes prximos. Alguns analistas consideram que no tm de 
levar isso em conta. No  este o momento de discutir a colocao do tratamento de 
psicticos; digamos somente que, se entabulamos o tratamento de um paciente psictico, 
sem que ele o pea (supondo que ele seja capaz de o fazer) ou sem levar em conta os 
obstculos que seus familiares criaro,  como se decidssemos quem deve viver e quem 
deve morrer. Posio de autoridade anloga  da Igreja catlica ao prescrever que se 
deve salvar a criana e no a me, quando um parto s pode ser realizado s custas de 
uma das duas vidas. 
A ateno que prestamos s possibilidades atuais do paciente deve ser acompanhada 
de um exame crtico das hipteses tericas e tcnicas que inspiram nossa prtica. 
Toda interrupo de tratamento nos coloca diante de duas interrogaes:
1) compreendemos ou pressentimos para quem e em que a continuao do tratamento 
deixa de ser suportvel? 
2) no teremos, por nossas palavras, avanado demais, imposto, insistido?. . . Em suma, 
teremos permanecido em nosso lugar de analistas? 
Na seqncia natural destas reflexes, consideremos uma outra eventualidade. Nos 
servios hospitalares, assim como nos
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consultrios, ouve-se muitas vezes o pessoal clnico queixar-se de ser manipulado. Essas 
pessoas procuram proteger-se do que chamam de manipulaes ou evit-las. Quando se 
analisam as situaes incriminadas, percebe-se que tais manipulaes so respostas a 
uma violncia exercida pelo pessoal clnico. 
Um exemplo: um adolescente psictico  admitido num hospital diurno. Aps anos de 
consultas e processos teraputicos abortados, os pais pedem claramente que o filho seja 
colocado em regime de vigilncia. Entretanto, o hospital s admite o jovem nas seguintes 
condies: os pais tero mensalmente um encontro com o psiquiatra de servio e com o 
analista do paciente no mesmo ritmo; o prprio paciente ficar sob a responsabilidade de 
um analista. Nenhuma das trs pessoas envolvidas fez uma solicitao. O que se passa? 
Algum tempo depois, o pessoal do servio queixa-se de estar sendo manipulado pelos 
pais, que procuram impor seus horrios, suas vontades, criticam a organizao e 
importunam com pedidos de favores para isto ou para aquilo. Os encontros dos pais com 
o psiquiatra e com o analista espaam-se e depois cessam. Tudo o que se faz no servio 
 por eles desacreditado. Quanto ao paciente,  um ponto morto. Entretanto, as 
declaraes que esse casal fez ao analista permitem pensar que se seus desejos, seus 
limites, sua liberdade de escolha tivessem sido respeitados, um trabalho poderia ter sido 
feito, uma solicitao poderia ter nascido. Mas eles se sentem, com razo, ameaados, 
conduzidos por vontades estranhas, forados  defensiva, at mesmo ao ataque protetor. 
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VI. O CONCEITO DE PERSONALIDADE  
O estudo da personalidade foi introduzido na antropologia por intermdio das pesquisas 
sobre a educao infantil e as perturbaes da personalidade (neuroses, psicoses, 
sintomas psicossomticos. . .). Os estudos comparativos s indiretamente dizem respeito 
aos problemas da personalidade; somente a atingem atravs dos sistemas de 
comunicao e de relaes caractersticos de uma forma de vida social. De um povo a 
outro, nada mais existe para comparar alm dos costumes, instituies, crenas, sistemas 
diversos de linguagem, de atividade e de organizao social. I to-somente  luz desse 
conjunto que se pode interrogar sobre os modos de agir de cada um. O estudo filolgico e 
sociolgico faz-nos conhecer as conotaes do status pessoal: o que  ser uma criana 
nessa sociedade? O que  ser um homem ou uma mulher? O que  ser um doente? E 
assim por diante. Mas, repetimos, essas investigaes de ordem geral s indiretamente 
envolvem os problemas pessoais de cada um, que so problemas prticos, singulares, 
circunstanciais, sempre ligados a uma histria individual. 1 somente numa histria que se 
pode fazer a juno entre o social e o individual. Entre o terapeuta, que trata de casos 
singulares, e o antroplogo, que
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estuda as estruturas sociais, existe, pois, quase a mesma relao existente entre 
historiador e socilogo. 
O conceito de personalidade  inseparvel de uma idia precisa de comunidade moral 
entre os homens. Em todas as sociedades, o reconhecimento de urna criana como 
membro da comunidade institucional  explicitamente declarado de alguma maneira (em 
geral, pelos ritos de imposio do nome ou pelas normas de estado civil). O 
reconhecimento  definido, constitui objeto de uma deciso explcita. Tudo se passa como 
se pertencer  natureza humana tivesse necessidade de ser confirmado por um 
testemunho. A comunidade moral, ao decidir reconhecer um de seus membros, decide 
simultaneamente sobre si mesma, sobre os valores que ela estipula em princpio. 
a partir de uma anlise da ao que nossa tradio moral e jurdica define a pessoa como 
um ser capaz de razo e de direito (capax rationis, capax juris), ou seja, capaz de 
considerar as conseqncias possveis de seus atos e de diferenar os papis atribudos 
a cada um numa organizao social. Nada pode ser pessoalmente atribudo a um 
indivduo sem que se postule uma racionalidade, uma possibilidade de coerncia. S se 
pode atribuir a algum uma crena ou um desejo com base em outras crenas, desejos, 
entre os quais se desenham as escolhas, as alternativas. Quaisquer que sejam as formas 
sociais de uma cultura, quaisquer que sejam as regras do jogo, a srie de movimentos 
efetuada por cada um nesse jogo conduz logicamente para um caminho que apresenta 
suas prprias restries e possibilidades. A personalidade no  definida somente por 
particularidades de carter; ela define-se, universalmente, pela capacidade de se 
reconhecer e de se fazer reconhecer ao comunicar-se com outros, mediante uma 
linguagem capaz de exprimir o verdadeiro e o falso. A autoconscincia desenvolve-se 
simultaneamente com a capacidade de se comunicar com outrem. A singularidade 
pessoal de um indivduo d-se a reconhecer na questo: como posso comunicar-me com 
ele? A pessoa  o interlocutor possvel. Na medida em que contribui para a formao de 
vnculos humanos, a linguagem faz parte da ao e da interao entre os homens; ela 
impe s sociedades humanas certas condies que as distinguem das sociedade 
animais, O objeto de minha conferncia pode, por-
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tanto, resumir-se na interrogao: qual  o tipo de relaes que a linguagem instaura entre 
os homens? 
Minha exposio compreender trs partes: 1) utilizarei a discusso sobre as relaes de 
parentesco nos animais para introduzir certos aspectos distintivos das relaes humanas; 
2) apoiar-me-ei numa anlise da linguagem para tentar precisar o que se chama a 
identidade pessoal; 3) exporei brevemente a funo dos referenciais identificatrios na 
formao da personalidade. 
1) Para dar uma maior compreenso da natureza do problema, partirei de uma 
comparao entre o homem e o animal apoiando-me num artigo de Robin Fox intitulado: 
Parent chez les primates et systmes de parent humaine * No tenho competncia 
para discutir o parentesco nos animais. Mas, para as necessidades de minha 
argumentao, citarei uma observao de Robin Fox que, verdadeira ou falsa, me parece 
de todo modo interessante. Eis, pois, o que escreve Robin Fox a propsito do parentesco 
entre os smios: 
Se o vnculo sexual  breve, o consangneo  duradouro e reveste-se de importncia 
primordial. Os primeiros relatos publicados nesse domnio sublinharam corretamente o 
peso da hierarquia masculina. Mas a existncia de grupos de parentesco duradouros 
revela-se agora de igual importncia. Fundamentalmente, esses grupos so unidades 
de parentesco uterino ou, em outras palavras, baseiam-se numa filiao matrilinear. 
Nos trabalhos anteriores, isso no foi considerado pela simples razo de que eram 
escassos os dados a longo prazo. Atualmente, sabemos que entre os macacos e os 
chimpanzs, por exemplo, as linhagens matrilineares constituem o ncleo duradouro do 
grupo.  a interao entre a hierarquia masculina, de uma parte, e as linhagens 
(maternas), de outra, que alimenta a dinmica de um sistema social. 
O grupo clssico compe-se de uma me idosa, seus filhos e filhas, e os filhos destas. 
Ainda no conhecemos com toda a certeza a durao dessa continuidade (aps a morte 
da me
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velha), mas grupos de quatro geraes foram observados e decinco a seis geraes 
no esto excludos. 
Duas coisas me parecem notveis nesse texto. Em primeiro lugar, Robin Fox, que no 
distingue claramente descendncia e linhagem, define a descendncia animal por um 
grupo de geraes vivas, realmente observveis. Em seguida, formula uma pergunta: o 
que sucede a essa descendncia aps a morte da me velha? Enquanto a av estiver 
viva, a posio hierrquica que ela ocupa no bando determina a ordem de sua 
progenitura. Mas o que se passa com a morte da av? Embora o texto no seja muito 
claro nesse ponto, creio ter compreendido que com a morte da av a classificao 
hierrquica se reorganiza; cada um retoma suas peas e o jogo recomea. 
Suponhamos que tudo seja assim. Desse ponto de vista, o que  que distingue uma 
linhagem humana de uma descendncia animal? Uma linhagem humana, a qual inclui, 
evidentemente, os vares, define-se por referncia a seus ancestrais (masculinos ou 
femininos, pouco importa). Foi a morte que transformou o ancestral em smbolo e fez dele 
um referencial identificatrio para todos os membros da linhagem. O ancestral morto 
tornou-se um ponto de referncia simblico que representa a autoridade do costume, de 
tal modo que as regras consuetudinrias de parentesco tornam-se independentes das 
vicissitudes individuais. Os avs podem morrer, mas o simbolismo ancestral do costume 
permanece; ele fornece aos indivduos o meio de reconhecimento dos vnculos de 
parentesco que os unem numa instituio familiar. Para que haja verdadeiros sistemas 
familiares entre os smios, faltam duas coisas: 
o ancestral e a troca de dotes entre as linhagens. Falta-lhes a capacidade de simbolizar 
suas relaes em lugar de ter simplesmente de viv-las. 
Obtemos assim um primeiro elemento de resposta  pergunta feita no incio: de que tipo 
so as relaes propriamente humanas? O exemplo do ancestral ilustra bem a maneira 
como os homens podem reconhecer-se ligados entre si num grupo social. Para associar-
se entre si numa linhagem, os seres humanos fazem referncia a um termo mediador, o 
ancestral, que pode ser alternativamente considerado um ser ou um smbolo.
102



Seja o ancestral real ou mtico, ele possui em todos os casos a funo de um marcador, 
de um ponto de referncia em torno do qual se desenha uma certa topografia dos laos 
humanos. Poderemos supor, por conseguinte, que a formao da personalidade na 
criana  um processo de simbolizao, ou seja, de construo de certos pontos de 
referncia que lhe permitiro a aprendizagem de relaes familiares. A identificao das 
pessoas apresenta-se-nos aqui como um problema de localizao do eu e do outro, um 
problema anlogo ao do viajante que procura orientar-se e determinar sua localizao 
com a ajuda de um mapa, sendo o mapa, para ele, um meio simblico de localizao. 
O que se deve entender por smbolo? O smbolo  um sinal capaz de ter um valor 
sinttico ou combinatrio. Por outras palavras, o smbolo  como os gendarmes, nunca 
anda sozinho. Chamo de smbolo a todo sinal convencional que pode ser ligado a outros 
por regras de sintaxe ou, mais generalizadamente, por regras de seleo e de 
combinao, de tal modo que, ao operar sobre os smbolos em vez de atuar diretamente 
sobre as coisas, a atividade adquire uma certa autonomia em relao ao meio ambiente 
imediato. Portanto, o smbolo  o instrumento de uma auto-regulao da atividade. E. 
nesse sentido que a formao da personalidade constitui um processo de simbolizao 
das relaes humanas. 
Admitiremos que a aprendizagem humana, a aquisio da cultura se efetuam pelas vias 
conjugadas da induo e da simbolizao. A induo  uma antecipao, uma inferncia 
puramente prtica que nos coloca na expectativa, fazendo esperar o retorno de certas 
seqncias de eventos. Ela  antecipatria, mas no explicitamente generalizante, pois a 
sintaxe lingstica  indispensvel para generalizar e particularizar, no sentido da 
quantificao dos predicados. . a aquisio da linguagem que permite a construo, na 
experincia perceptiva, de conjuntos ordenados, de relaes conceptuais sobre as quais 
se regula o comportamento. A gnese das regras de ao apia-se em classificaes 
conceptuais, como so, por exemplo, os termos de parentesco. Toda relao humana tem 
uma base perceptiva, ou seja, um suporte indutivo que a linguagem utiliza para construir 
estruturas mais ou menos complexas, como os sistemas
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familiares, por exemplo. Assim  que as diferenas de sexo, de idade e de gerao so 
as bases indutivas ou os materiais com os quais os termos de parentesco chegam a 
construir uma multido de relaes diversas. Nos smios, a relao maternal possui um 
suporte indutivo ou indutor, por certo, na experincia vivida, mas este no simboliza uma 
regra de ao vlida atravs da alternncia dos mortos e dos vivos. 
Para que seres vivos apaream como pessoas, comeamos por entrever duas condies 
necessrias: 1) pontos de referncia simblicos; 2) regras de alternncia entre os papis 
ou as posies de cada um num sistema de comunicao.  o que vamos tentar precisar, 
abordando agora a anlise da linguagem. A linguagem ser aqui considerada em sua 
funo pragmtica, ou seja, no que ela faz, no tipo de relaes que estabelece entre os 
homens. 
2) A pessoa assinala-se na linguagem por indicadores que denominamos pronomes 
pessoais ou pronomes possessivos, cujo conjunto descreve as condies necessrias 
para a existncia de um sistema de comunicao, marcando as posies relativas do 
locutor (primeira pessoa), do destinatrio (segunda pessoa) e do objeto de que se fala 
(terceira pessoa). Consideramos os indicadores pronominais como indicadores de 
posio, como marcadores topogrficos. 
O sistema dos pronomes pessoais faz-nos conhecer as condies gerais da 
comunicao entre os homens, que so tambm as do reconhecimento do eu e do outro, 
a forma geral sob a qual se manifesta um ser dotado de razo. Um indivduo identifica-se 
como uma pessoa quando pode reconhecer-se ou situar-se em todas as posies 
necessrias  existncia de um sistema de comunicaes segundo o que ele fala, se lhe 
fala ou se fala dele. A identidade pessoal nada mais  do que a singularidade fsica de um 
indivduo, mas a forma sob a qual essa identidade se d a reconhecer como pessoal  
uma forma lingustica ou simblica de comunicao que faz alternar as posies ou os 
papis sob os quais um indivduo se apresenta. Temos de nos reconhecer numa srie de 
situaes em que somos alternativamente aquele que fala, a quem se fala ou de quem se 
fala. Quando se trata da identidade pessoal, tem-se
104



geralmente a tendncia para confundir seu problema lgico e o problema psicolgico de 
seu reconhecimento. 
Do ponto de vista lgico, identificar um ser  cont-lo por um e poder dizer vrias coisas 
diferentes desse mesmo ser singular. A personalidade constitui uma realidade biolgica, 
uma individualidade natural fisiologicamente apta a exprimir- se por sinais culturais. Sua 
subjetividade  ao mesmo tempo fsica e moral, natural e cultural. Para reconhec-la, em 
sua singularidade, somos obrigados a acrescentar ao corpo algum sinal eletivo, algum 
sinal de reconhecimento, marcando a pertena desse ser ao nosso universo moral, algum 
trao distintivo que sirva de suporte indutivo  identificao do lugar, familiar ou longnquo, 
que ocupa na topografia dos vnculos humanos. Mesmo quando uma declarao de 
identidade  feita no registro impessoal ou objetivo do discurso, somos obrigados a incluir 
nessa declarao no s os referenciais naturais, como sexo e idade, mas tambm os 
referenciais sociais ou convencionais, como nome, estado civil e profisso. Para falar de 
uma pessoa no basta utilizar o sinal;  preciso mencion-lo, atribuir ao indivduo seu 
lugar na comunidade das pessoas. A ontologia da pessoa obriga-nos a assumir duas 
espcies de seres: o corpo e o smbolo, o indivduo e a linguagem, o ser natural e o ser 
artificial ou cultural. A humanidade s reconhece o que leva sua marca (mesmo junto aos 
deuses). Entretanto, temos a possibilidade de distinguir o indivduo e a posio moral ou 
social que ele ocupa na comunidade das pessoas, pois que o sistema dos pronomes 
pessoais faz alternar as posies de cada um segundo o que ele fala, se lhe fala ou se 
fala dele. Desse modo, podemos distinguir o ser e o smbolo, o indivduo e sua posio 
relativa em face dos outros. A rigidez das posies pessoais na neurose faz justamente 
contraste com a mobilidade ou a espontaneidade requerida pelas trocas com outrem 
numa grande variedade de circunstncias. 
O sistema das trs posies que um indivduo pode ocupar na linguagem estabelece 
toda a relao entre os parciros do dilogo, na base de uma referncia a um terceiro 
elemento, que pode ser alternativamente objeto ou sinal, ser ou smbolo. Diremos que 
essa regra lingstica de comunicao  a estrutura mnima do reconhecimento do eu e 
do outro.
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Resta determinar, entretanto, o tipo de relaes constitutivas do registro pessoal na 
alternncia das posies eu/tu, ns/vs. Essas relaes so de duas espcies: de 
reciprocidade e de comunidade. 
A relao de reciprocidade entre os parceiros de um dilogo no  imediatamente 
simtrica; est orientada daquele que fala para aquele que escuta;  uma relao vetorial, 
orientada como uma ao. Encontramos a mesma assimetria em todos os termos de 
endereo ou de interpelao. Nos termos de parentesco, so as diferenas de sexo, de 
idade e de gerao, as que permitem obter relaes assimtricas, vetoriais (por exemplo, 
a relao primognito/caula entre irmos). A segunda pessoa  apenas uma pessoa 
virtual ou presuntiva; s tem uma posio atribuda e s quando tomar a palavra, por sua 
vez,  que se afirmar como pessoa atual. Dizemos tu a um co; ele no responde eu e 
no diz ele. Portanto, um co no  uma pessoa, pois no pode ocupar todas as 
posies necessrias  existncia de um sistema simblico ou lingstico de 
comunicao. A relao pessoal s se torna recproca por alternncia das posies no 
dilogo ou troca. 
Enfim, a relao de comunidade ou de pertena do indivduo a um grupo ou uma 
coletividade qualquer  explcita no plural ns, mas tambm pode ser implicitamente 
atribuda na segunda pessoa, quando, ao dirigirmo-nos a um interlocutor, associamo-lo a 
ns de qualquer maneira. Distinguiremos duas formas gerais de associao entre os 
homens. Os homens podem associar-se entre eles em funo de metas ou de objetivos 
comuns.  o que chamaremos de comunidades de objetivos. Mas os homens associam-
se igualmente em funo de uma origem comum. Designaremos por comunidade de 
origem toda comunidade a que um indivduo pertence em virtude de seu nascimento, isto 
, no s a famlia, mas tambm a ptria, a nacionalidade, a etnia e tambm, por 
metfora, a comunidade religiosa, pois toda comunidade religiosa se funda na referneia 
a uma origem sobrenatural da vida e dos vnculos espirituais que unem seus membros. 
Essas duas formas de associao por referncia a um objetivo ou origem comum no so 
mutuamente excludentes, mas repousam sobre princpios dife-
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rentes e  muito importante no confundi-las na anlise do problema moral, social ou 
psicolgico. 
As sociedades tradicionais conferem uma importncia privilegiada  comunidade de 
origem, ao passo que as sociedades contemporneas tendem a desenvolver as de 
objetivo sob a forma de empresas comerciais, partidos polticos ou outras associaes 
com fins profissionais, humanitrios etc. As comunidades de objetivo apiam-se na 
racionalidade da ao, isto , na escolha de meios e de finalidades especiais; favorecem 
a mobilidade social e ganham em liberdade ou em racionalidade o que perdem em 
estabilidade. A comundade de origem  estvel, na medida em que se justifica por 
condies irreversveis, que enrazam o indivduo em sua infncia;  relativamente 
indiferente aos objetivos perseguidos por cada um; deixa-se racionalizar pouco, mas, em 
contrapartida, presta-se  idealizao ou  transposio, conforme vimos, por exemplo, a 
propsito da comunidade religiosa. Comunidade de origem e comunidade de objetivo 
distinguem-se pela maneira de conceber as relaes causais e as relaes de ordem, 
constitutivas da ao. A comunidade de objetivo interessa-se pelas causas e efeitos da 
ao atual, assim como pela ordem atual das preferncias na escolha dos fins e dos 
meios. A comunidade de origem define-se por referncia s causas primeiras, s origens 
da vida, assim como aos valores de que  herdeira. O lugar que a religio ocupa na 
histria da humanidade atesta, sob uma forma idealizada, a importncia afetiva da 
comunidade de origem. Pois a comunidade de origem  um fato cultural e no somente 
natural; as bases naturais constituem apenas o suporte indutivo da simbolizao de 
relaes familiares ou nacionais. O fato social  isomrfico da linguagem, envolve a 
diferena entre o ser e o smbolo, sem a qual no haveria lugar nenhum para duas 
pessoas.  por isso que os vnculos comunitrios fazem parte integrante da 
personalidade: cada um tem sua maneira prpria de ser francs ou americano, membro 
de uma famlia ou de uma associao qualquer. Somos freqentemente tentados a 
raciocinar como se os indivduos fossem cpias conformes de um modelo coletivo e como 
se cada cultura fosse uma conformidade, mas essa confuso entre o pessoal e o tpico
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 o mecanismo que fabrica os deuses e as fantasias. Na realidade, a relao social  
sempre simbolizada de modo que cada um tem sua maneira prpria de se apropriar dela 
e de a fazer sua. 
Com esta anlise das relaes de reciprocidade e de comunidade que se instituem na 
linguagem conclui-se a anlise terica do conceito de personalidade. Mas a teoria s 
fornece um modelo ou padro de confeco para a descrio coerente dos casos 
particulares. Para mostrar como se pode fazer funcionar a teoria, retomaremos a 
comparao entre o homem e o animal de acordo com o artigo de Robin Fox 
anteriormente citado. Desta vez, utilizaremos a comparao entre o homem e o animal, a 
fim de mostrar em que consistem os referenciais identificatrios que enrazam o indivduo 
em sua comunidade de origem, e como a construo desses referenciais obedece s 
condies mnimas de estrutura ou de relao que definimos abstratamente at aqui pela 
anlise da linguagem. 
3) Em seu artigo sobre o parentesco entre os smios, Robin Fox sustenta uma tese 
extremamente interessante. Ele mostra que a reproduo nos smios organiza-se em 
funo de um duplo sistema: de um lado, um sistema de filiao, a que esse autor chama 
de matrilinear e, de outro, um sistema que ele chama de aliana, que , sobretudo, de 
acasalamento. No de filiao, as fmeas interessam-se por sua progenitura; no de 
acasalamento, os machos interessam-se pelas fmeas, mas no pela progenitura, no 
importa como; h diferentes hbitos de acoplamento em diferentes espcies de smios, O 
que h de notvel na tese de Robin Fox  que ela mostra, no animal, a existncia de dois 
sistemas onde, no ser humano, encontramos apenas um, a que chamamos justamente de 
sistema familiar ou sistema de parentesco. Por conseguinte, no animal, existe somente 
um quase-parentesco, uma vez que nos deparamos com dois sistemas onde deveria 
haver apenas um. De que modo apreciar essa diferena? Robin Fox no parece ver que a 
sociedade animal e a sociedade humana no repousam sobre o mesmo tipo de relaes. 
A interveno da linguagem muda a natureza das relaes entre os membros do grupo. 
Robin Fox prope modificar o esquema pelo qual Lvi-Strauss resumia o mnimo de
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relaes necessrias  construo de um sistema de parentesco. Lvi-Strauss tinha 
chamado a esse esquema de o tomo de parentesco:  

O esquema mostra que a relao de aliana entre dois parceiros estabelece-se por 
referncia a um terceiro termo: os homens de uma linhagem do a irm como esposa a 
um homem de uma outra linhagem; essa doao engendra uma dvida; a linhagem 
receptora dever dar uma mulher  gerao seguinte. O fato social  aqui, portanto, 
homlogo da linguagem; encontra-se a o mesmo gnero de relaes: uma relao de 
reciprocidade (por referncia  mulher), relaes de pertena a uma comunidade de 
linhagem (por referncia a um ancestral comum). 
Robin Fox acha que o tomo de parentesco teria sido 
mais bem esquematizado assim: 
No esquema de Robin Fox, as relaes de reciprocidade e de comunidade j no se 
definem em referncia a um terceiro elemento suscetvel de simbolizar uma regra (tal 
como a regra de troca ou a regra de descendncia). As relaes no so mais 
simbolizadas por um terceiro termo, mas agora so puramente funcionais. Aplicando aos 
seres humanos um esquema a que chamarei de simiesco, Robin Fox descreve uma 
configurao muito freqentemente encontrada nas famlias de esquizofrnicos. Quando, 
no transcurso de duas ou trs geraes sucessivas, as mulheres se organizaram de modo 
a reduzir o pai  sua funo instrumental de genitor, obtm-se o que o psiquiatra J. 
Guyotat chama de um esquema de filiao nar-
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csica. A filiao  narcsica no sentido de que as mulheres colocam o pai fora do circuito 
e isso de maneira repetida ao longo de duas ou trs geraes. Tais padres so 
encontrados com freqncia nos psicticos. 
O esquema simiesco  incapaz de simbolizar ou modelizar posies pessoais em que os 
seres sejam singularizados como interlocutores possveis uns dos outros. Com efeito, o 
esquema de Robin Fox no leva em conta a maneira como as relaes so significadas. 
Nele encontramos unicamente relaes de complementaridade funcional. Os termos so 
tomados dois a dois, o macho e a fmea, a genitora e sua prognie, e os dois termos 
complementares formam de cada vez um sistema fechado. Produz-se aqui algo de 
anlogo  dissociao esquizofrnica. Quando, nos seres humanos, constitui-se um 
sistema fechado na base da complemntaridade, os indivduos so encerrados numa 
situao que s poder repetir-se indefinidamente de maneira montona, sem avanar 
nem progredir um passo sequer, pois que toda e qualquer mudana de um lado  anulada 
por urna mudana complementar do outro. Esse sistema no admite nenhuma 
aprendizagem possvel. Pode apenas oscilar como um pndulo. 
Para me ater a exemplos simples, a fobia infantil, que impele a criana a refugiar-se nas 
saias da me,  construda na base de uma relao complementar da parte com o todo: 
quando a criana est isolada, ela sente medo, perde o controle, e s reencontra sua 
integridade quando volta a formar com a me um todo, um par complementar. Essas 
relaes de complementaridade em que os termos so tomados dois a dois num sistema 
fechado tm sido freqentemente assinaladas por diversos autores. J. Lacan falava de 
relao especular em que cada um devolve ao outro sua imagem invertida como num 
espelho, Watzlawick falava do esquema do balano, em que dois indivduos se opem, 
fazendo a mesma coisa de maneira inversa, Lvi-Strauss falava de organizaes 
dualistas em certas aldeias, ao mostrar que o esquema dualista no  o que explica o 
funcionamento interno do sistema mas seu limite externo; as duas partes complementares 
marcam as fronteiras no
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interior das quais o sistema se encerra. Poderamos ilustrar isso com numerosos 
exemplos clnicos. Quando um sistema social se fecha na complementaridade, ele 
constri-se de acordo com um princpio de repetio montona. A compulso de 
repetio nada mais  do que um crculo vicioso. As relaes humanas tornam-se 
incoerentes quando no se leva em conta a maneira como elas so significadas, assim 
como a modalidade das atribuies pessoais. 
Nenhuma relao social pode reduzir-se  reciprocidade ou ao vis--vis entre dois 
indivduos;  necessrio introduzir um ou vrjos outros termos suplementares, para que 
sejam exprimveis as regras consuetudinrias que determinam a pertena dos indivduos a 
esta ou quela comunidade. O simbolismo social marca os status, os papis e os modos 
de pertena a tal ou tal grupo, desenha a topografia dos vnculos humanos na qual se 
inscrevem as relaes pessoais. 
Quando se estuda a formao da personalidade, convm evitar dois erros: o primeiro 
consiste em privilegiar, de maneira exclusiva, a relao me-filho, o segundo consiste em 
falar de um modo indiferenciado do meio ambiente familiar. Admitindo-se que, no 
comeo, a relao da criana com sua me seja uma relao de complementaridade 
biolgica ou de uma parte com um todo, as interaes entre ambos s podem comear a 
significar relaes pessoais em referncia ao pai, pois  em referncia a um terceiro que 
se diferenciam as relaes de reciprocidade e de comunidade que constituem, como 
vimos, a condio necessria para todo o reconhecimento do eu e do outro. Uma me 
queria um filho somente para ela; repetia-lhe a todo instante que ele era s dela e 
tambm que era lindo. Ora, esse jovem era psictico. Seu tema delirante era que tinha um 
rosto medonho, cheio de feridas, e que seu nariz se decopunha. Tudo se passa como se o 
delrio, ao introduzir um ponto de vista oposto ao da me, recorresse cegamente ao de 
uma terceira pessoa, sem a qual seria impossvel manter-se uma construo coerente das 
relaes de reciprocidade e de comunidade. Ao dizermos isso, atribumos ao delrio uma 
funo positiva, vemos nele o substituto de uma racionalidade enfraquecida ).
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Tem sido freqentemente observado que o doente, neurtico ou psictico, agarra-se a 
seu sintoma at mesmo quando este o faz sofrer. Para explicar esse fato, Freud falava de 
resistncia e de pulso de morte. Esses rtulos so inteis. Se admitirmos que o sintoma 
 uma formao de compromisso que se substitui a uma funo enfraquecida, pode-se 
compreender que um ser humano prefira o sofrimento ou at mesmo a morte  perda das 
condies mnimas de estrutura necessrias  existncia de uma intimidade pessoal. 
Toda a angstia  angstia de perder-se, ou seja, de perder essa estrutura mnima sem a 
qual a vida no valeria a pena ser vivida. 
Um transtorno da personalidade  a expresso, mais ou menos aberrante em sua forma, 
de uma interrogao sobre si mesmo: quem sou eu? A interpretao consiste em 
reencontrar, sob a forma aparentemente afirmativa da fantasia, do delrio ou do mito, a 
situao problemtica de que ela procede. Diversos mitos contam que os primeiros seres 
nasceram de um ovo primordial e que mais tarde foram institudas as regras do 
casamento. A razo de tal mito compreende-se facilmente se lhe dermos uma forma 
interrogativa: nasci de um? Ou nasci de dois, de um casal sexuado? A pergunta, neste 
caso,  mais importante do que a resposta. Sabe-se, por exemplo, que a soluo 
religiosa consiste no em escolher, mas em aceitar juntos os dois termos da alternativa; a 
religio admite simultaneamente que o homem nasce de um (de uma potncia 
sobrenatural) e de dois (o casal sexuado). O ponto importante  que a comunidade 
religiosa sublinha, grosso modo, a caracterstica principal de toda comunidade de origem: 
a interrogao sobre a origem  o lugar privilegiado das interrogaes sobre si mesmo. 
Na sociedade civil, a racionalidade da ao  suficiente para fazer conceber claramente a 
distino do meu e do teu. Mas, na relao com nossos ascendentes, essa distino 
perde- se na bruma. Cada um pode surpreender-se ao descobrir em si mesmo um tipo de 
reao, um tom de voz, que outrora o irritou quando o observava em seu pai ou em sua 
me. Os primeiros referenciais identificatrios, ou seja, os fragmentos esparsos da 
histria familiar com os quais se constituem as bases emocionais da personalidade, so 
aqueles que inserem a criana
O CONCEITO DE PERSONALIDADE 
em sua comunidade de origem, e que sustentam a interrogao sobre si mesma: o que  
ser um menino ou uma menina? Como nascem as crianas? O que  vir a ser um homem 
como meu pai ou uma mulher como minha me?
A observao clnica mostra que um indivduo, ao interrogar-se sobre sua infncia, faz 
sempre referncia  me e ao pai-genitor, qualquer que seja o sistema familiar da 
sociedade. Como j dissemos, trata-se de uma questo de localizao. Para localizar-se 
na vida, a criana aprende a distinguir, entre seus pais e mes classificatrios, aqueles de 
que nasceu. De onde provm a importncia da paternidade na espcie humana? Provm, 
seguramente, de que a inteligncia humana  capaz de interrogar-se sobre as causas do 
que ela observa e de procurar- lhes uma explicao. O prprio do ser humano  poder 
interrogar-se sobre si mesmo e, portanto, sobre suas origens. Pouco importam as 
fabulaes que rodeiam o nascimento dos indivduos e as origens do homem; a fbula 
testemunha a existncia de uma interrogao subjacente e de uma necessidade de 
explicao. Por suas maneiras de viver e de se comportar, os ascensentes oferecem a 
seus descendentes referenciais identificatrios, ou seja, sinais de reconhecimento, 
indicadores de pertena a uma comunidade, ao mesmo tempo que expresses familiares 
de reciprocidade. A criana no recebe essa herana de maneira passiva. Poderamos 
comparar a criana a um jogador de cartas, que recebe, no comeo da partida, uma certa 
quantidade de cartas, uma distribuio mais ou menos favorvel. A distribuio parental 
no  a mesma para cada filho, cada filho no recebe as mesmas cartas que existem no 
baralho. Por conseguinte, no existe causalidade linear entre os ascendentes e seus 
descendentes, mas interaes complexas que devemos estudar uma de cada vez numa 
histria singular.
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